terça-feira, agosto 22, 2017
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A explosiva contabilidade da geopolítica – gastos com a guerra em 2015

As bases materiais (economia) determinam as ideias, a cultura, a superestrutura, o Estado e o poder político no interior das nações. Isso todo mundo sabe. Ou deveria saber. Mas o que talvez nem todo mundo saiba é que, externamente, as relações econômicas internacionais determinam o poder geopolítico entre as nações. Inclusive seus “grandes homens”. Como Napoleão, l’Empereur, por exemplo, que tinha perfeito conhecimento dessas regras básicas da ciência política. Que sabia, com muito desconforto em suas campanhas contra a Inglaterra, principalmente, que o poder geopolítico é função da capacidade de cada país financiar suas despesas de guerra. Que no dia-a-dia, é função das diferentes capacidades fiscais e de endividamento dos diferentes governos nacionais para contabilizar créditos maiores ou menores do seu Produto Interno Bruto (PIB) para a guerra. O resto fica por conta da política e da ação dos homens. Novo relatório divulgado pelo Instituto de Pesquisa Internacional da Paz de Estocolmo (SIPRI, na sigla em inglês) nesta terça-feira (5) fornece números atuais a respeito.[1]  

Os gastos militares globais em 2015 foram estimados em US$ 1,676 trilhão, representando aumento de cerca de 1% em termos reais frente a 2014. O total dos gastos equivale a 2.3% do PIB global. Este foi o primeiro aumento global desde 2011. Como é ilustrado pelo gráfico abaixo, esse total de gastos globais com a guerra cresceu continuamente de 1998 a 2011, antes de cair levemente entre 2011 e 2014.

Comparado com 2014, não houve grandes mudanças no ranking das 15 nações com maiores gastos militares. Os Estados Unidos continuam de longe o primeiro da lista (US$ 596 bilhões), aproximadamente três vezes mais que os gastos da China (US$ 215 bilhões), 2º colocada. Entretanto, os gastos militares dos Estados Unidos continuaram caindo em 2015, embora a um ritmo menor (- 2.4%) desde 2011. As projeções indicam que, doravante, deve se manter no nível atual. Desde seu mais recentepico, em 2010, os gastos da maior potência militar do planeta – com 36% de participação dos gastos militares globais, conforme gráfico abaixo – foram reduzidos em 21 %, principalmente por causa dos ajustes do orçamento impostos pelo Congresso (2011 Budget Control Act), assim como a retirada da maior parte das suas tropas do Afeganistão e Iraque. Esse enfraquecimento dacapacidade fiscal e de endividamento da maior potência imperialista mundial, resultado do choque cíclico 2008/2009, teve impacto irreversível na dinâmica geopolítica global do início dos anos 2000. Observe-se, por exemplo, a nova estratégia da realpolitik de Washington para o Oriente Médio (Irã) e o leste da Ásia (China e Japão).

Nesta nova realpolitik, sobressai-se o notável estreitamento da aliança real de Washington com a Rússia, costurada com esmero profissional por John Kerry e Sergei Lavrov. Essa aliança realpolítica, embora nem um pouco clara para a cabeça microcefálica dos experts acadêmicos de geopolítica e consultores de empresas, já é aprovada até pelo fanfarrão ultranacionalista Donald Trump, candidato com grandes chances de tornar-se o novo presidente dos EUA nas eleições deste ano. É a Europa germanizada do euro e o Japão em sua solidão asiática que são colocados para dançar nessa nova mexida de cadeiras da geopolítica global. Terão as antigas potências militares da primeira metade do século 20 que resolver seus próprios problemas, que agora se avolumam com estrema rapidez. Devemos tratar melhor desse imbróglio com novíssimos acontecimentos. Como o Japão, que na semana passada alterou a Constituição e oficializou naDieta (Congresso Nacional) a restauração do seu protagonismo militar no mundo. A volta dos samurais. Livres para guerrear. Pelo menos no leste da Ásia, onde a terra do sol nascente era muito poderosa até a sua infantil aventura em Pearl Harbor.

Como já mencionado acima, a China permanece no 2º lugar do ranking mundial, com as despesas de guerra aumentando 7.4% em 2015. Essa taxa também começa a se desacelerar, devido ao enfraquecimento econômico e fiscal do país.[2] Com liberdade legal para novo rearmamento, o Japão poderia superar os gastos chineses com a guerra e subir rapidamente no ranking dos 15 maiores gastos globais. Não se pode esquecer que com a proximidade do novo e muito mais poderoso choque cíclico, muita coisa vai mudar nesse ranking que ainda espelha erradamente o tradicional tabuleiro do pós-guerra (1945). Com certeza voltaremos brevemente a esses negócios da guerra.

 

[1]Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), “World military spending falls resumes upward course’,” SIPRI press release, 5 April 2016.

[2] Na América Latina, as despesas militares já estão em queda absoluta. Particularmente no Brasil, que desabou 3.8% em 2015. No ano passado, os gastos do Brasil com a guerra (eminentemente interna, de um exército permanente para uma repressão permanente das classes dominantes sobre o exército industrial de reserva) foram de US$ US$ 24,6 bilhões e representaram 1.4% do PIB (1.5% em 2014). O Brasil ocupa o 11º lugar no ranking dos países com maiores gastos militares no mundo, acima de países como Itália (12º) e Israel (15º). Vide gráfico abaixo. Falaremos proximamente dessa relação paradoxal entre enormes despesas militares e minúsculo poder geopolítico dessas nações totalmente dominadas na ordem imperialista mundial.

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