domingo, junho 25, 2017
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As Modernas Formas da Fome Capitalista

O moderno modo de produção capitalista é incapaz de alimentar a população mundial. Isso se manifesta de duas formas. A primeira através da forma de fome absoluta. É quando as pessoas não dispõem nem da quantidade mínima necessária de alimentos para se manterem de pé por muito tempo. Vão para a cama com o estomago vazio.
Segundo avaliação da Organização das Nações Unidas (ONU), pelo menos 800 milhões de pessoas, incluindo 300 milhões de crianças, “toda noite vão para a cama com fome”. Já é um número catastrófico. Mas tratando-se de avaliação de uma organização imperialista, esse número da ONU de indivíduos portadores de fome absoluta deve estar bastante subestimado.
A segunda forma através da qual se manifesta a incapacidade do modo de produção capitalista alimentar a população mundial é a fome relativa. Pode ser chamada também de fome especificamente capitalista. É quando as pessoas dispõem formalmente de certa quantidade de alimentos, mas de péssima qualidade e alto grau de morbidez para a manutenção da saúde individual e coletiva.
A fome relativa é um resultado histórico do estágio mais avançado da agricultura capitalista, das mega indústrias capitalistas de alimentos, do sistema de transporte, armazenamento, conservação e distribuição dessas mercadorias-capital.
Pessoas portadoras de fome relativa são obesas e lentas. Vão para a cama com o estômago cheio (muito cheio), mas com um monte de invisíveis fraquezas orgânicas e visíveis doenças pelo corpo. Mercadorias-capital que provocam inflamações físicas e mentais generalizadas. Que podem provocar a morte dos seus consumidores a qualquer momento.
Segundo estudo publicado na conceituada revista New England Journal of Medicine, aproximadamente um terço da população mundial é obesa ou com sobrepeso. Em 2015, o excesso de peso afetou 2,2 bilhões de pessoas em todo o mundo. Cerca de 11 vezes a população brasileira.
A pesquisa relata também que parcelas crescentes da população mundial estão morrendo atingidas por complicações relacionadas a essa erupção de obesidade em uma “turbulenta crise global de saúde pública”.
Em 2015, aproximadamente 4 milhões de pessoas morreram, de acidentes vasculares cerebrais, diabetes, câncer e outras doenças imediatamente ligadas ao excesso de peso. A taxa de óbitos relacionados ao sobrepeso subiu 28% em comparação com 1990, de acordo com a mesma pesquisa.
O que se pode ver além dos números e conclusões desta bem elaborada pesquisa? Em primeiro lugar, que o aumento da fome da população mundial não se deve a nenhuma relação natural. Por exemplo, entre uma suposta relação natural entre rápido crescimento da população e limitação de recursos naturais (terra, trabalho, etc.) para a produção de alimentos.
O incontrolável aumento da fome que se presencia nas primeiras décadas do século 21, ocorre no ponto mais elevado do desenvolvimento histórico do regime capitalista de produção. Quando a produção agrícola também atinge níveis recordes.
O incontrolável aumento da fome da população mundial apresenta-se como produção de alimentos em formas especificamente capitalistas. É um fenômeno histórico. Não tem absolutamente nada de natural. Nenhuma doutrina malthusiana explica o que se passa.
A deterioração da qualidade dos produtos agrícolas, dos contaminados alimentos industrializados e comercializados em todos os cantos do mundo – deve-se unicamente à crescente necessidade de redução dos custos de produção e de circulação do capital.
O crônico processo atual de deterioração da qualidade dos alimentos e a consequente fome relativa devem-se à necessidade dos capitalistas de sustentação de crescentes taxas de lucro embutidas nos preços desses bens necessários a reprodução física da população mundial, historicamente materializados na forma de valor ou mercadorias-capital.
Outra coisa importante: a aceleração da fome relativa, especificamente capitalista, não elimina a fome absoluta herdada da propriedade privada em geral e de modos de produção anteriores.
Ao contrário. A aceleração da fome relativa é acompanhada pela introdução, intensificação e generalização da fome absoluta. Espalhadamente. Não mais apenas nos países dominados da periferia, como algumas décadas atrás. A fome absoluta retorna triunfalmente também nas grandes cidades do centro imperialista.
Miséria absoluta para todos. A fome especificamente capitalista se realiza como a unidade de fome absoluta e fome relativa. Uma fusão de duas formas de fome que se globaliza e se espalha indistintamente em todas as nações do mundo. Uma terceiro-mundialização das grandes metrópoles imperialistas. Um triunfo da civilização. As favelas e os miseráveis da civilização invadem ameaçadoramente Nova York, Berlim, Londres, Paris…
Negação da negação: essa unidade da fome capitalista não poderá ser rompida – e, portanto, eliminadas ambas as formas que a constituem – se não for revolucionariamente abolida a forma histórica de produção social que a gerou, a sustenta e a espalha catastroficamente por todo o mundo.

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