terça-feira, agosto 22, 2017
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Batalha de Debaltseve: os rebeldes das repúblicas populares do Donbass derrotam o exército ucraniano

Os rebeldes das repúblicas populares do Donbass derrotam o exército ucraniano apoiado pelos Estados Unidos e OTAN. Apoiado, não “pró EUA”. Da mesma forma que as milícias populares do Donbass são apoiadas pela Rússia, não são “pró Rússia”. Essas diferenças são importantes para se entender o que se passa atualmente na Ucrânia, e principalmente, o que virá pela frente.

Como salientado no mais recente boletim da Critica Semanal da Economia (“A Europa no Caminho da Guerra”) nem os russos nem os estadunidenses estão interessados em ampliar a guerra. Desejam apenas o poder sobre o espaço geopolítico europeu. Mas a guerra deve se ampliar porque, como vimos, é determinada, antes de tudo, pelas condições internas da Ucrânia: crise econômica catastrófica e consequente ingovernabilidade da luta de classes. Este processo já se arrasta há mais de dez anos. Lembram-se da “revolução laranja” (2004/2005) do fanfarrão Viktor Yushchenko? O longo processo de apodrecimento do Estado ucraniano apenas agravou nos últimos anos e metamorfoseou-se na atual guerra civil. Cronicamente irreversível.

 A batalha final pelo domínio da cidade de Debaltseve, importante entroncamento ferroviário no leste da Ucrânia, travada nesta semana, foi na dimensão das grandes e históricas batalhas. Era decisiva para o futuro da guerra civil ucraniana. As milícias das repúblicas populares de Donetsk e Lugansk venceram. Os exércitos dos nacionalistas neonazistas de Kiev, armados pelos Estados Unidos e OTAN, capitularam e fugiram em desordenada e “dolorosa” retirada, segundo os relatos dos seus soldados para o repórter do jornal The Wall Street Journal. [1]

Depois de três dias de impiedoso bombardeio das milícias republicanas, relata a matéria do WSJ, os desesperados soldados de um batalhão do exército da Ucrânia pediram socorro para o comandante mais próximo. “Camaradas, não temos como socorrê-los”, foi a resposta. Começou então a retirada de 14 milhas, durante a noite, por campos, rios, e colinas, para furar as linhas das milícias populares. Na manhã de Quarta-feira, 18, eles foram os primeiros de centenas de soldados a chegar em caminhões, tanques, ou a pé, ao mais próximo posto de inspeção do governo, perto da cidade de Lugansk.”

Segundo ainda o WSJ, “a retirada foi o maior golpe para o governo pró-ocidental e o presidente Petro Poroshenko, que havia insistido que o exército apoiaria os soldados que mantinham o domínio do estratégico cruzamento ferroviário. Esse apoio foi caótico, sangrento, e, muitos soldados relatam, chegou muito atrasado. Os soldados dizem que deixaram muitos mortos para trás.”

Poroshenko diz que a retirada foi “disciplinada e pré-planejada” e que suas forças cumpriram a missão de segurar a cidade durante a semana passada de negociações de paz e depois reforçar a posição de Kiev nas negociações. Poroshenko não está preocupado com centenas de soldados do seu exército mortos ou mutilados (fato que ele esconde) na defesa da cidade. Faz parte da guerra, diria o cínico analista. É verdade que o problema não é moral, sentimental, de se lamentar as mortes da guerra; ao contrário, diz respeito ao futuro sendo decidido no chão da batalha, quer dizer, o desfecho revolucionário da guerra ou da vitória da reação capitalista e imperialista. Poroshenko procura esconder a humilhante derrota militar do seu exército predominantemente de mercenários polacos, estonianos e outros neofalangistas do leste europeu e alhures, organizados, remunerados e armados pelos serviços especiais dos EUA e OTAN. Mas essa fragorosa derrota preocupa muito estes seus patrões.

Segundo matéria da Agência Tass[2], os relatos dos comandantes das milícias populares contrastam frontalmente com a visão mistificadora de Poroshenko. Coincidem com a “desordenada e dolorosa retirada” relatada na matéria do imperialista WSJ. De acordo com Alexandre Zakhachenko, importante comandantes da República Popular de Donetsk, as tropas ucranianas abandonaram grande quantidade de armamentos pesados e munição na sua improvisada retirada. “A quantidade de equipamentos que a Ucrânia perdeu aqui é muito maior do que se imaginava. Capturamos carregamento de munições tanto em Debaltseve quanto em Uglegorsk” diz ele. E acrescenta que “a rodovia Debaltseve- Artyomovsk tornou-se a ‘estrada da morte’ para as tropas da Ucrânia que tentaram furar o cerco. De acordo com nossas estimativas, cerca de dois batalhões foram dizimados na área e os soldados mortos foram enterrados de qualquer modo no próprio terreno”.

A Ucrânia perdeu suas melhores unidades e grande quantidade de armamentos e munições na “armadilha de Debaltseve”. E, conclui Zakhachenko – “A Ucrânia mostrou mais uma vez sua incapacidade de luta. Abandonaram seus soldados. A 128ª brigada de fuzileiros, que Poroshenko diz ter deixado Debaltseve ‘ordenadamente e planejadamente’ está completamente destruída. Seus soldados estão abandonados no cerco. A mesma coisa para o 8º Regimento de Força Especial e todas as outras unidades das forças armadas ucranianas e Guarda Nacional que se engajaram na área de Debaltseve.”

O comando das milícias de autodefesa de Donetsk já declarara anteriormente que o exército ucraniano tinha agrupado 8000 homens na área para combatê-las, quando as manobras do cerco a Debaltseve foram lançadas. Esse é outro dado que demonstra a capacidade muito superior de combate das tropas rebeldes sobre o exército ucraniano. A vitória na batalha de Debaltseve abre o caminho para ampliação ainda mais importante das forças populares na guerra que está longe de terminar.

A tomada de Mariupol, importantíssima cidade portuária na costa do mar de Azov, com mais de 500 mil habitantes, será a próxima grande batalha. Mais importante que a de Debaltseve.  O governo ucraniano informa (e pede socorro para os EUA) que mais de 20 tanques, dez sistemas de mísseis e vários caminhões com soldados das repúblicas populares rumaram em direção a Novoazovsk – a cerca de 40 quilómetros de Mariupol. Já nesta quinta-feira, 19, tinha havido notícia de bombardeamentos sobre posições ucranianas em Shirokine, também na costa do mar Azov. A tomada de Mariupol tem um elevado significado estratégico. É a principal cidade ainda sob controle de Kiev nas duas regiões controladas pelos rebeldes e a sua tomada permitiria uma ligação terrestre à península da Criméia (e o porto de Sebastopol), que se reintegrou à Rússia em Março do ano passado. A geografia é determinante na questão militar.

Com a demonstração de força dos rebeldes no campo de batalha, espantosamente confirmada na batalha de Debaltseve, de um lado, e, de outro, uma correspondente impotência de luta do exército ucraniano apoiado pelos EUA, pode-se apostar com alta probabilidade de acerto que a tomada de Mariupol é questão de tempo. E a bela guerra ucraniana assumirá desdobramentos altamente criativos na geopolítica europeia.

 

[1] The Wall Street Journal:‘It’s Capture or Death’: Ukraine Soldiers Recount Painful Retreat”) – (“Capturar ou Morrer: Soldados Ucranianos Falam de Dolorosa Retirada”). , 20/02/2015.

[2] Tass – “Ukrainian troops leave loads of munitions in Debaltseve — militia leader”) (As Tropas ucranianas abandonaram estoques de munições em Debaltsevo, segundo milícias)  19/02/2015

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