terça-feira, junho 27, 2017
Home > Diário do Capital > Brasil > Brasil: o que vem depois das reformas imperialistas

Brasil: o que vem depois das reformas imperialistas

Tanto a política econômica da morte quanto as suas irmãs gêmeas, as reformas para aniquilar os salários e a vida dos trabalhadores produtivos, não estão sendo criminosamente executadas apenas para encher ainda mais os cofres dos banqueiros e outros patrióticos parasitas. Essa é apenas a superfície mais visível e mais popular do problema. O fato principal é que isso não resolve o problema atual da própria burguesia industrial, e, portanto, de todas as demais classes e subclasses dominantes do sistema.
A coisa vai além do parasitismo da esfera financeira ou meramente distributiva do produto nacional. O mais importante – e o que tem de novo por trás dessas ações criminosas executadas quase que diariamente em Brasília – é a necessidade de uma nova e absolutamente imprecisa reestruturação da esfera produtiva de capital do país. Aqui começam as vicissitudes dos capitalistas.
Trata-se de criar com a máxima urgência as condições indispensáveis a um aprofundamento sanguinário de integração da atual esfera produtiva industrial de valor e de mais-valia (lucro) do país às cadeias produtivas de capital globais. Isso não é coisa fácil como um ajuste macroeconômico e retomada do crescimento. Portanto, o que essas ações burguesas e imperialistas têm que resolver não é somente os interesses particulares do capital produtor de juros, de rendas fundiárias, etc., mas, antes de tudo, o resgate do capital produtor de lucro em crise terminal. Caso contrário, tudo desaba no choque global que se aproxima.
Levantamento feito pelo Valor Data, a partir dos resultados de 253 empresas não financeiras, em 2016, aponta desempenho anual das receitas líquidas próximo de zero, comparado com um avanço médio de 10,2% de 2011 a 2015. Ou uma queda real de 6,29% – considerada a inflação acumulada no ano. Veja esse e outros resultados no quadro abaixo:

É recomendável considerar os números de 250 empresas, à direita do quadro, que excluem os resultados distorcidos da Petrobras, Vale e Eletrobrás. O mais importante a se observar, inicialmente, é a rigidez, com viés de alta, dos custos dos produtos vendidos e das despesas operacionais, quer dizer, ocorridos na produção propriamente dita. São esses custos que eles tem que reduzir a qualquer custo, mesmo que se incendeie o país. Como não sabem quanto deve ser reduzido, para não errar eles resolveram matar milhões de trabalhadores. Um problema a menos.
Mas será que matar milhões de trabalhadores produtivos resolve o problema econômico central dos capitalistas? Esse problema está claramente estampado na tabela acima: queda de 1% do Lucro Ebit – quer dizer, lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização. Nada mais é que a massa real de mais-valia (lucro operacional) embutida nos preços operacionais, quer dizer, preços de produção, de Marx e Engels. Devemos desconsiderar o “Lucro Líquido” que aparece na tabela mas não tem muita importância econômica, a não ser no mercado de capitais – refere-se apenas a dividendos atribuídos a acionistas controladores, como é anotado na parte de baixo da tabela.
Podemos, então, relacionar o Lucro Ebit com as Receitas Líquidas e encontramos uma Taxa Média de Lucro de aproximadamente 10,50%. Embora aparentemente elevada, se comparada com a Taxa de Lucro Operacional de aproximadamente 7,5% da economia dos EUA, a taxa brasileira já resulta de uma queda de 10 pontos percentuais comparada com a taxa prevalecente antes do choque 2008/2009. Essa tendência de queda livre é o mais importante.
Por isso os novos investimentos nas linhas de produção de capital estão estagnados. Nem a capacidade ociosa está sendo reaproveitada. Uma taxa de lucro de 10%, apenas 2% acima da taxa dos EUA, não desperta nenhum interesse dos capitalistas. Montar seu negócio nos EUA de Donald Trump é atualmente muito mais rentável e seguro que no Brasil. O mesmo ocorre, diga-se de passagem, com a rentabilidade do capital na China e outras grandes economias dominadas do sistema. Os capitalistas param de acumular nestes países de baixa produtividade (mais-valia absoluta) e custos relativamente crescentes porque neles a taxa de lucro está atualmente em baixa frente a taxa de lucro geral reguladora do mercado mundial (EUA).
O que está em jogo, portanto, não é apenas uma simples recuperação do crescimento do Produto Interno Bruto. A redobrada violência atual da burguesia e seu democrático governo Temer/Globo nada mais é que uma tentativa desesperada de salvar de qualquer jeito a coisa mais básica do regime atual de exploração: a própria propriedade privada especificamente capitalista, materializada pela capacidade industrial instalada e irradiada para valorizar todas as demais formas improdutivas de propriedade de capital fictício, rendas fundiárias, alugueis em geral, etc.
O limite econômico desta tentativa, entretanto, é o de se fazer agora o que a China e o México fizeram há mais de vinte anos, além de outras inúmeras economias montadoras menores espalhadas por todos os poros do mundo. Acontece que esse sistema está com validade vencida. Gira com muita dificuldade desde 2008/2009. É por isso que o resultado dessa criminosa tarefa executada pelas classes dominantes e imperialistas no Brasil será pífio. Não resolverá seus problemas de proprietários capitalistas. Se esfarelará no vazio do desgastado padrão de acumulação global iniciado com o antigo mercado de eurodólares e petrodólares dos anos 1960/1970 e aprofundado pelas siderais reestruturações e deslocamentos de fábricas globais no período 1980 – 2007. O futuro está em aberto, a única coisa que se sabe é que nada será como dantes.
O limite político e social dos crimes atuais da burguesia brasileira e imperialista é a consequência necessária. A destruição das já precárias leis do trabalho, da capenga Previdência, da Saúde, da Educação, etc. torna-se então em verdadeira delinquência social das classes dominantes brasileiras. Não tem nenhuma justificativa teórica, prática ou moral. Apoia-se apenas no regime democrático.
Uma delinquência vazia de sentido zelosamente executada por um governo de crápulas da pior espécie – do executivo ao legislativo e judiciário – que eleva a temperatura da luta de classes a níveis insustentáveis. Uma boa delinquência que, junto com o próximo choque cíclico global, explodirá em criativa ingovernabilidade na maior economia da América Latina. Não é essa, afinal, a condição necessária (embora não suficiente) tão esperada que abrirá as portas da possível revolução social no continente?

texto-meio