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Brasil Urgente: Entrevista de José Martins ao Correio da Cidadania

24/05/2017
Correio da Cidadania: O que comenta das revelações trazidas à tona com a investigação dos executivos da JBS-Friboi, que praticamente implodem o governo Temer e respingam poderosamente em alguns associados, como Aécio Neves?

José Martins: Acho que isso é resultado de um estágio avançado de putrefação na capacidade de governar das classes dominantes no Brasil. Acho que o caso Friboi revela de maneira mais clara como verdadeiros donos do poder têm dificuldades crescentes de garantir a governabilidade do seu próprio Estado. Quer dizer, dificuldades crescentes de executar de forma estável e previsível seus interesses econômicos e a capacidade de administrar a luta de classes. Nas condições clássicas de ingovernabilidade burguesa atualmente em curso no Brasil as coisas da administração pública e as pessoas envolvidas ficam imprevisivelmente descontroladas. Cronicamente ingovernáveis. De repente, tudo acontece de maneira surpreendente, inacreditável. As perspectivas são de piora da situação.

CdC: Globo e Veja já “demitiram” Temer, ainda que defendam suas reformas; outros como a Folha ainda tentam mantê-lo. O que falar do comportamento da mídia empresarial ao considerarmos todos os seus brados contra a corrupção, que tomaram conta de sua pauta jornalística neste século?

JM: A mídia dos capitalistas e do imperialismo procura encontrar uma saída para garantir as indefectíveis “reformas necessárias”. Mas o que está mais do que claro é que a roubalheira não é o maior problema atual da política brasileira. Corrupção a gente encontra em toda parte. É da natureza do regime capitalista. Até recentemente ela era transformada pelos donos do poder e sua mídia em tapa-olho político para esconder os verdadeiros crimes econômicos e sociais que eles praticam quotidianamente. Em momentos de crise de governabilidade esse tapa-olho é mais utilizado que em épocas normais. Globo, Veja, Folha de São Paulo e outros representantes maiores da mídia dos donos do poder no Brasil continuam repercutindo essa mistificação. É importante desviar a opinião e o imaginário do grande público do verdadeiro problema político atual. Mas esse expediente já perde sua força frente à gravidade da situação econômica e social. Os capitalistas e rentistas em geral, por seu lado, não se iludem com bobagens moralizantes. Sabem que o grande problema criado com iminente queda de Michel Temer – perfeitamente esperada pelas pessoas bem informadas, diga-se de passagem – é que, além de outros flagrantes delitos capitalistas, as sagradas “reformas” trabalhistas e da Previdência, aparentemente tão bem encaminhadas, até o dia 17 de Maio, poderiam cair junto com o atual governo.

CdC : Enxerga relação entre as revelações da JBS e a falta de resultados práticos do governo?

JM: Enxergo. Mas não como uma conspiração minuciosamente planejada, como alardeia o próprio Temer. Apenas como providencial oportunidade para ele ser descartado pelo mercado. Temer não conseguiu recuperar o crescimento da economia e mostrava até dificuldades para aprovar as “reformas”. Antes mesmo do terremoto de delações da última semana, o homens do mercado já tinham perdido grande parte da confiança de que esse governo provisório tivesse força política suficiente para administrar seus negócios. As provas agora apresentadas de que ele também é um grande ladrão do erário público só fizeram agravar aquela desconfiança. Para o mercado Temer é um incompetente até para esconder suas falcatruas. Em termos práticos, acabou seu mandato. Mas, é bom repetir, não por que acaba de ser revelado para o grande público que ele seja apenas mais um ladrão de gravata a ocupar a presidência da República. O problema Temer para os capitalistas é outro. E que vai pautar todo o desdobramento político dos próximos meses. Qual, neste momento, é a utilidade de um presidente da República incapaz de constituir um verdadeiro governo, quer dizer, um comitê de negócios das classes dominantes capaz de descarregar sucessivas “reformas” nas costas da classe trabalhadora? Dá para pensar na estabilidade de algum governo que não seja capaz de garantir a paz social e, consequentemente, os lucros dos patrões? Foi pela incompetência de cumprir essas tarefas que Temer caiu em desgraça.

CdC: Como fica a Lava Jato e seus principais protagonistas do poder judiciário com a eclosão deste escândalo, vinculado à outra investigação da Polícia Federal, a Carne Fraca?

JM: Creio que todos os grupos capitalistas que agem no Brasil, tanto os nacionais quanto estrangeiros, embora muito divididos pelos seus interesses econômicos particulares, estão mais unidos do que nunca na intenção de interromper a chamada Lava Jato. A Lava Jato tornou-se apenas um foco de descontrole da administração dos negócios. Justamente a Lava Jato que até pouco tempo atrás eles amavam tanto. Inclua-se aí a alta classe média conservadora que saia às ruas batendo panela e pedindo o fim da corrupção. Mas não se trata apenas da Lava Jato. Na luta para salvar da prisão seus mais brilhantes empresários e suas mais importantes lideranças políticas os donos do poder prostituem não só seus representantes no executivo e no legislativo. Agora, em um estágio mais avançado da ingovernabilidade no país, prostituem também a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal. E o fazem descaradamente. Abertamente. Assim, transformam de fato todos os protagonistas do poder judiciário, em todas suas instâncias, em todo o país, em meros bonecos decorativos, sem qualquer autonomia. Mais do que em qualquer ditadura militar do passado.

CdC: Qual o balanço deste ano de governo Temer, em especial em termos econômicos e os supostos remédios para a crise ministrados por Henrique Meirelles?

JM: O ano de governo Temer foi um enorme fracasso econômico. A economia permaneceu estagnada, o desemprego aumentou no mesmo ritmo em que se acelerava a deflação dos preços, dos salários, e da utilização da capacidade instalada. Sem falar em um aumento dos desequilíbrios das contas públicas, exatamente os desequilíbrios que o governo prometia eliminar. Os remédios ministrados por Meirelles durante o primeiro ano de governo Temer foram os mesmos de Joaquim Levy durante o segundo governo de Dilma Rousseff. Remédios totalmente equivocados para se enfrentar uma crise cíclica. Os dois últimos governos brasileiros são os únicos no mundo, junto com o atual da Argentina, que fazem neste momento uma política econômica contracionista. Até as outras grandes economias dominadas do sistema global, como China, Índia, Rússia, Turquia, etc. fazem política fiscal e monetária anticíclica, quer dizer, redução da taxa básica de juros, aumento dos gastos do governo, etc. Só no Brasil de Dilma e de Temer, junto com a Argentina de Macri, aplica-se a sangue frio a política da morte, a política dos juros e do “ajuste” dos parasitas. As economias do Brasil e da Argentina ainda permanecem “apenas” estagnadas por que estão esperando passivamente o próximo choque cíclico global. Quando este último ocorrer, muitas vezes mais potente que o último ocorrido em 2008/2009, as duas maiores economias da América do Sul afundarão abraçadas. Isso é inescapável. Pensem nisso, e nesta perspectiva econômica que se deve projetar a perspectiva política do curto e médio prazo. A autonomia relativa desta última já está quase que totalmente consumida.

CdC: Como analisa o comportamento do lulopetismo em meio a isso tudo? O que achou das manifestações contra o governo neste domingo?

JM: O claudicante lulopetismo começou a morrer por volta 2013, dois ou três anos depois do último choque global. E morreu de vez com o impeachment de Dilma Rousseff. Sobraram suas almas penadas. Essa forma de populismo senil foi descartada pelos seus patrões capitalistas e imperialistas da mesma forma como Temer está sendo agora. Os motivos da repentina inutilidade do lulopetismo para os capitalistas são exatamente os mesmos que agora selam o destino de Temer. Mas as assombrações do lulopetismo ainda pesam sobre a esquerda democrática. As manifestações contra o governo, como as de domingo passado, precisam se libertar do peso destes mortos insepultos. Senão continuarão muito tímidas e sem jogar o importante papel que poderiam representar nas batalhas decisivas da luta de classes que já se anunciam no nosso dia a dia.

CdC: Você considera que toda a esquerda já está rendida à ideia de mais um mandato de Lula? Neste caso, o que comentaria do comportamento de Lula e dos que formulam os discursos do petismo, no sentido de um eventual terceiro mandato?

JM: Creio que nem toda a esquerda democrática esteja rendida a essa ideia sem sentido na realidade das coisas. Acho que começam a surgir sinais alentadores de que partes crescentes da esquerda democrática se distanciam do populismo assistencialista de triste memória. Distanciam-se, inteligentemente, de uma ilusória perspectiva eleitoreira e da agenda política burguesa. São camadas sérias de revolucionários que, nos últimos quinze anos, sobreviveram dignamente ao terrorismo colaboracionista dos governos e pelegos lulopetistas. De todo modo, só quem for totalmente incapaz de observar cuidadosamente o que se passa na economia nacional e, consequentemente, o que vem pela frente no Estado capitalista brasileiro, pode imaginar a possibilidade de mais um mandato de Lula. Ou mesmo de uma eleição “normal” em 2018. Isso é uma grande bobagem.

CdC: O que considera do atual momento das esquerdas e seus discursos em meio à crise de um modelo econômico que já completa uma década no planeta?

JM: A economia brasileira vive neste momento um impasse histórico. Encontra-se travada a capacidade de acumulação do capital na antiga forma como vinha se realizando até o choque de 2008/2009. Problemas insolúveis de produtividade, preços, salários e taxa de lucro que correspondam às novas condições de valorização do capital global depois deste último choque de 2008/2009. O mesmo problema é enfrentado pelas demais grandes economias dominadas dos BRICS, assim como as da Argentina, do México, da periferia da União Europeia, etc. É um problema muito amplo cujo detalhamento e esclarecimentos não cabem nesta rápida entrevista. Sugerimos que acessem nosso site da Crítica da Economia onde tratamos exaustivamente deste problema. Basta dizer, por hoje, que as classes dominantes e imperialistas contam com uma única carta para tentar resolver esse cabeçudo problema. Ou, melhor dizendo, se defrontam com uma verdadeira sinuca de bico para destravar a acumulação de capital no país e voltar a crescer a altas taxas de lucro e de produto interno bruto. Trata-se de integrar competitivamente a economia nacional às imundas cadeias produtivas globais de capital. Indústrias montadoras, maquiadoras, plataformas de exportação, zonas econômicas especiais e outras barbaridades da produção imperialista global. Barbaridades, diga-se de passagem, reservadas exclusivamente para economias dominadas na hierarquia imperialista global. Para tanto os salários da classe operária no Brasil (ou do exército industrial de reserva no Brasil, de maneira mais ampla) deveriam ser reduzidos a níveis haitianos, indianos, vietnamitas e outras coisas absurdas da globalização capitalista. Isto já vem sendo realizado desde o segundo governo Dilma. Este é também o sentido das famigeradas “reformas necessárias”, que eles tratam com um fanatismo que ninguém vai encontrar nem na mais fundamentalista religião que se tenha notícia em todo o mundo. Vide principalmente as novas legislações de terceirização, da jornada de trabalho, das negociações de salários, etc. A política econômica aparentemente suicida que falamos antes também é executada de maneira orgânica a essa arquitetura da destruição: só uma brutal e longa desaceleração da produção, acompanhada de correspondente desemprego, pode reduzir os salários aos níveis necessários aos capitalistas. Mas isso só pode ser executado passando pelo crivo da luta de classes.

CdC: Voltando à mídia, um mandato presidencial identificado à esquerda teria o direito de não debater a questão da democratização da mídia e de fazer uma dura revisão a respeito da concessão da Rede Globo, após exercer enorme papel político na queda de Dilma, a vencer em 2022?

JM: Essa ideia de um mandato presidencial identificado à esquerda é absurda, totalmente vazia, devido às condicionantes materiais absolutamente inéditos na sociedade brasileira que observamos brevemente acima. Mais absurdo ainda é se pensar em democratização da mídia, revisão da concessão da Rede Globo em 2022 e outras gritantes ingenuidades frente ao apodrecido quadro político atual. Sem levar as inéditas condições materiais atuais em consideração qualquer tentativa de se pensar as perspectivas políticas brasileiras, mesmo para o curtíssimo prazo, estará totalmente falseada. Procurando ser o mais didático possível: ao aprofundar sua atual política econômica e social, as classes dominantes aprofundam na mesma proporção sua ingovernabilidade política. Isso ocorre porque a matança da classe operaria atualmente em curso eleva a miséria da população em geral e a luta de classes a níveis altamente explosivos. Isso não é apenas uma hipótese, é resultado de uma insubstituível necessidade das classes dominantes no Brasil. Isso já pode ser claramente verificada no dia a dia da política brasileira. Basta prestar atenção nas coisa reais que estão acontecendo na nossa cara. É no bojo desta contradição entre necessidades do capital e sistemático assassinato de grandes contingentes do exército industrial de reserva que as classes dominantes perdem o controle até das maiores instituições da administração burocrática do governo e do seu próprio aparelho policial de repressão. E aproximam celeremente o país de uma guerra civil.

CdC: Você é a favor da ideia das Diretas Já? Quais seriam as melhores saídas no curto prazo para essa enorme crise de legitimidade da política e até da democracia?

JM: Creio que as considerações que procurei apresentar anteriormente nesta entrevista já responderam quase que pontualmente à primeira parte da sua pergunta. Quanto à segunda parte, creio que a resposta depende de qual lado da luta de classes você se encontra e da sua preocupação pessoal com os destinos da democracia e a salvação de outras instâncias deste regime político burguês. Mas isso ainda é insuficiente. A despeito da melhor formulação pessoal a respeito das inúmeras saídas políticas no curto prazo para a burguesia e sua carinhosa governabilidade, creio que doravante, dada a gravidade da situação, mais do que em outras situações menos turbulentas, só a luta de classes e o proletariado em ação poderá dar uma resposta mais precisa a essas indagações.

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