terça-feira, agosto 22, 2017
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Crítica Semanal da Economia

Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra. Corretíssimo. Quem discorda, por exemplo, da ideia de que “o Brasil não participa da globalização, a China sim”? Ou, ainda, de que “o Brasil está chegando atrasado à globalização”? Pelo menos nove dentre dez economistas responderão que não resta a menor sombra de dúvida que essa é a realidade da maior economia do lado de baixo do equador.

Para estes cavaleiros da ordem imperial o grande problema da economia brasileira é que ela sempre foi muito fechada aos investimentos externos. Muito protecionista! Essa é a razão da sua crise atual! Muito protecionismo! A solução? Simples: o país precisa se abrir ao capital externo e se integrar incondicionalmente, passivamente, às cadeias produtivas globais. A economia do imperialismo agradece por tanta originalidade de pensamento. Começando pela abertura aos investimentos externos diretos (IED). São muito baixos, dizem eles, em comparação com outras economias. Unanimidade é isso. Essa coisa burra que, felizmente, nunca resiste à simples observação dos fatos. Vamos a eles.

A realidade é global. Os números apresentados em nosso boletim anterior (“O limite da globalização é ela mesma”) desmentem, em primeiro lugar, outra ideia unânime entre os economistas acerca da direção dos fluxos e do estoque de Investimento Externo Direto (IED) na economia mundial. Ao contrario do que é imaginado, a maior parte do IED global se direciona às economias dominantes do sistema, onde predomina a mais-valia relativa, particularmente EUA e Europa. Uma parte muito menor se direciona às economias dominadas, onde predomina a mais-valia absoluta – China, Brasil, Índia. Argentina, México, África do Sul… [1]

Os deslocamentos internacionais de empresas e capital-dinheiro ocorrem principalmente entre as economias dominantes. Historicamente, mais de 75% do estoque global de IED concentra-se nas economias dominantes. É nelas que se concentra a acumulação do capital. E se centraliza a propriedade das empresas. Só ocorreu alguma redução desta massacrante participação nos primeiros quinze anos dos anos 2000. Caiu, em 2015, para aproximadamente 65% do total. Dentro do bloco dos restantes 35% de IED destinados às economias dominadas, ocorreram também grandes alterações.

A economia brasileira já era altamente integrada aos fluxos de IED em 1990, com um estoque de capital externo instalado muito acima do encontrado nas economias chinesa, mexicana, argentina e indiana, por exemplo. Apenas para ficar nas maiores economias dominadas, junto com a russa, é claro, que deixamos de lado nestas observações. Portanto, até os anos 90, pelo menos, ao contrário da ideia unânime dos economistas mencionados acima, a economia brasileira já era bastante aberta aos fluxos dos investimentos diretos globais. Mais aberta que qualquer outra economia dominada. Uma realidade muito diferente daquela tolice amplamente difundida de que “o Brasil chegou atrasado na globalização”.

Tomando-se um indicador mais qualitativo do processo, o da participação dos IED no Produto Interno Bruto (PIB) de cada país, esse elevado grau de abertura da economia brasileira ao capital externo na produção doméstica fica mais evidente. De 7,8% de participação do IED no PIB brasileiro, em 1990, saltou para 18,7% em 2000 e, finalmente, para 27,4% em 2015.

Os apóstolos das “reformas necessárias” (fiscal, previdência, trabalhista, etc.) no Brasil acham pouco? Comparem então o que ocorreu no mesmo período com a China, seu grande álibi para mais abertura ainda ao capital externo. De 5,2% de participação do IED no PIB chinês, em 1990, saltou para 16,0% em 2000 e, finalmente, para surpresa geral, desabou para 11,1% em 2015. Enquanto no Brasil esse indicador qualitativo subiu continuamente no período, beirando atualmente os 30,0 %, na China já caiu para as proximidades de mirrados 10,0%. Nossos economistas do imperialismo devem começar a mudar de referência se não quiserem ser tragados pela nova crise econômica global que já está dobrando a esquina.

Por razões óbvias, pelo menos para Donald Trump, dentre as economias dominadas, só na economia mexicana aumentou-se essa participação do capital externo no PIB mais rapidamente que na economia brasileira. Quase 37,0% em 2015. Mas as trombetas soam em Washington: é hora do juízo final para os inconvenientes moradores ao sul do Rio Grande. Até a Argentina, cruelmente destroçada, nos últimos quinze anos, pelos rentistas internacionais dos Menens, Kirchners, Macris e Cia, manteve elevado índice de 16,0% de participação. Essa maior aceleração dos IED na produção das economias dominadas da América Latina ocorreu também na Índia. Os 13,5% cravados em 2015 já são superiores aos 11,1% da China. O reino de Ganesha, o Deus da prosperidade, é a novíssima estrela da globalização. O salário indiano só não é menor que o mexicano. Mas esse campeonato dos desvalidos da civilização ainda está longe de terminar. Não faltam competidores. O salário brasileiro começa a entrar para valer nesta competição de quem deve ser tosquiado com mais docilidade nas imundas cadeias produtivas globais de capital. As “reformas necessárias” do apocalipse liberal da protoburguesia brasileira estão aí para isso. Conhecido economista conservador declarou alguns dias atrás seu temor de que o Brasil se transforme em “um país de pobres e de velhos mendigos”.

Nenhum país do mundo tem seus investimentos em capital fixo mais integrados aos investimentos externos do que o Brasil. Disparadamente. Essa comparação pode ser verificada mais claramente na participação do IED na Formação Bruta de Capital Fixo (FBKF) das diversas economias. Veja os números abaixo:

IED – Participação % na Formação Bruta de Capital Fixo.

1990 2000 2015
Mundo 3.6 16.7 9.9
Economias Dominantes 3.7 17.6 11.2
   Europa 5.1 30.9 14.6
   EUA 3.8 13.3 10.8
Economias Dominadas 3.2 13.7   8.7
   China 3.7 10.2 3.0
   Índia 0.3 3.3 7.0
   América Latina 4.0 19.3 16.6
   Brasil 0.9 27.3 20.1
   México 5.6 12.8 11.9
   Argentina 9.7 21.7 11.4

Fonte: UNCTAD; dados organizados pelo autor.

Começando pela totalidade, pela evolução dos investimento externos diretos em máquinas e equipamentos (capital fixo) pelo mundo afora. A aceleração histórica recorde ocorrida no mundo nos anos 1990 não se repete depois do forte choque de 2000/2001. Verifica-se certa recuperação até 2007, quando a participação do IED na Formação Bruta de Capital global alcançou 13.7%. Voltou a cair na crise de 2008/2009, mantendo-se estável até 2015, na faixa entre 8.5% a 9.9%.

Esses números são muito importantes na análise da dinâmica atual e da perspectiva do longo período de globalização iniciado com maior intensidade na esteira do assustador duplo mergulho de 1980/1982. Conclusão importante: o declínio destas taxas de investimentos internacionais é uma fortíssima indicação de que a globalização do capital está entrando em novo período de estagnação e grandes turbulências. Isso muda todas as regras do jogo econômico e geopolítico que prevaleceram nos últimos setenta anos. Já estão mudando antes mesmos de grandes explosões que se potencializam.

Vejamos a coisa com mais precisão. Sabemos que a variação e dinâmica da participação do IED em máquinas e equipamentos depende prioritariamente da taxa de lucro média que deve remunerar a imensa massa de capital aplicada pelas empresas multinacionais na produção internacional. Segundo dados da UNCTAD, a produção industrial gerada pelo IED global continuou expandindo até 2014, quando alcançou aproximadamente US$ 7,9 trilhões. Não é pouca coisa. É mais do que o dobro da produção industrial dos EUA e mais que quatro vezes a da China.

Em 1990, a taxa de lucro do IED global era de 4,4%. O aprofundamento da globalização elevou esta taxa. Seu ponto mais elevado foi em 2007, quando cravou a taxa de lucro de 7,6%. Recuperou-se momentaneamente depois da crise de 2008/2009, alcançando, pelos últimos dados disponíveis: 7,0% em 2012; 6,1% em 2013 e 6,4% em 2014.

Essa taxa de lucro global é notavelmente próxima da taxa de lucro operacional da indústria dos EUA. Já tratamos exaustivamente desta indústria reguladora do mercado mundial, ou, melhor dizendo, de onde se forma o preço de produção regulador do mercado mundial. Entretanto, nos três últimos anos, ambas as taxas sofrem insustentáveis pressões. Pode-se relacionar essa tendência à queda da taxa de lucro global à diminuição da participação dos IED na Formação Bruta de Capital mundial. Se isso se confirmar com dados mais recentes, a serem ainda publicados pela UNCTAD, se poderá afirmar com mais segurança que a dinâmica da globalização tende atualmente a um fortíssimo refluxo.

De toda maneira, antes de novos dados a serem publicados, a nova política econômica e de relações internacionais do governo norte-americano, sintetizadas na forte frase “America First”, não dá grande margem à duvidas de que a economia do imperialismo está entrando em nova dinâmica. Em nova era protecionista. Isso não acontecia desde os anos 1920 e 1930, que antecederam a 2ª Guerra Mundial. Esse tipo de ingovernabilidade do imperialismo, que apenas se prenuncia nos números acima, leva necessariamente a crises econômicas catastróficas e guerras imperialistas. Esse é um cenário que se avoluma como o mais provável na análise estratégica dos atuais obstáculos ao estável desenvolvimento do capital mundial.

Neste embaçado cenário, o refluxo dos IED deve impactar bruscamente na economia global nos próximos trimestres, ao ritmo da queda da taxa de lucro das empresas multinacionais e da truculência protecionista de Washington. Como o tratamento que estão dando ao México, praticamente jogando seu generoso, desarmado e passivo vizinho para as profundezas do inferno. Mais ainda do que já estão desde que assinaram o tratado do NAFTA de livre comércio com EUA e Canada.

Não é só o México. Toda a América Latina começa a convulsionar. Desde o México até o Paraguai, onde a população acaba de incendiar o prédio do parlamento, passando pela inevitável guerra civil na Venezuela, pela tentativa de golpe dos liberais derrotados nas eleições desta semana no Equador, etc. – desembocando, finalmente, no Brasil, no agravamento da situação política do cronicamente inviável governo imperialista e sem máscara do anão Michel Temer. Há cerca de 22 milhões de desempregados no Brasil. Dados do IBGE (sentindo amplo, incluindo “informais” e aqueles que desistiram de procurar emprego).

O impacto direto e imediato do desfalecimento da globalização e do livre mercado será sentido antes nas economias mais expostas das áreas dominadas da economia do imperialismo. Principalmente naquelas que ainda se mantêm à tona graças à elevada integração e dependência aos fluxos globais de IED. Neste sentido, a economia brasileira preenche todos os requisitos. Como se observa nos números acima, no início dos anos 1990 a participação do investimento externo na formação bruta do capital fixo brasileiro era minúsculo 0.9%. No final da década alcançava robustos 27.3%. O famigerado Plano Real dava seus resultados. Toda a política econômica nacional tem um objetivo central e inarredável: atrair os famigerados “investidores externos”. Mesmo que para isso seja necessário manter por anos a fio a maior taxa básica de juros (a nominal e a real) do mundo.

Nos últimos quinze anos, apesar da forte desaceleração da participação do IED nos investimentos em capital fixo globais, no Brasil essa participação continuou perigosamente elevada. Em 2015, ela ainda se mantinha em 20.1%. Disparadamente a maior taxa de abertura e dependência ao capital externo de todas as economias mais importantes listadas pela UNCTAD. Veja novamente a tabela acima. Incluindo a Europa, que, em 2000, era o único espaço geoeconômico que ultrapassava um pouco o Brasil – com 30.9% de participação do IED em sua FBKF – em 2015 já tinha encolhido essa dependência para 14.6%.

Vemos agora que o problema que estamos investigando não diz respeito apenas a discussões obscenas e abstratas daquelas unanimidades burras mencionadas no início deste boletim. O problema é muito mais concreto. E urgente. Trata-se de saber, em primeiro lugar, o que vai acontecer nos próximos trimestres com a única carta que a protoburguesia brasileira tem para tentar sair da crise atual.

Que carta é essa? Em primeiro lugar, trata-se de despedaçar as condições de reprodução da classe trabalhadora e competir com os salários da Índia e México para se integrar mais organicamente às cadeias montadoras globais de capital. A miséria e a fome se alastram como uma metástase dizimando cruelmente a vida dos trabalhadores. Ao mesmo tempo em que se destrói a vida presente e futura da classe produtiva, trata-se de aumentar ainda mais a abertura da economia e contar com a sorte, quer dizer, com a entrada cada vez mais volumosa de IED para voltar a crescer e existir como sempre, como protoburguesia de segundo ou terceiro escalão na hierarquia mundial.

A protoburguesia brasileira não tem outra carta para jogar. Tem que jogar tudo ou nada em uma mais do que incerta continuidade da globalização e livre comércio que prevaleceu nas últimas décadas. Ora, como acabamos de verificar, essa carta está mais desvalorizada do que nunca em um mundo que mergulha perigosamente no cenário de protecionismo e guerras. O México que o diga. Ou a China, cujo presidente estará em visita nesta semana à Washington para visitar o seu educadíssimo colega Donald Trump. Sentir pessoalmente seu pulso. Como já fizeram recentemente (e não gostaram nem um pouco) Akio Abe San, primeiro ministro japonês, as digníssimas Lady Theresa May, primeira ministra da Inglaterra, e Frau Angela Merkel, da poderosa economia (só economia, por enquanto) alemã.

O inútil cucaracha Michel Temer está no fim da fila para ser recebido. No seu devido lugar, como é de praxe. Além disso, é cada vez mais forte a possibilidade que ele caia da sua cronicamente desestabilizada cadeira presidencial antes de ser chamado pelo cerimonial do seu patrão e todo poderoso Donald Trump.

[1] Na relação teórica com essa realidade, dois importantes conceitos da economia politica dos trabalhadores (Marx e Engels): “unidade da mais-valia absoluta e relativa” e “desenvolvimento desigual e combinado”. Voltaremos a esse assunto, esclarecendo o importante fato do espraiamento da miséria salarial e social nas áreas e economias dominantes como EUA, Eurozona e Japão. Nos últimos quarenta anos ocorreu uma “terceiro-mundialização” social das metrópoles imperialistas. Para Marx e Engels a predominância da  fase de submissão real do trabalho ao capital (mais-valia relativa) na totalidade do sistema não quer dizer que a extração da mais-valia absoluta desapareça. Ao contrário, ela aumenta. Os capitalistas utilizam os mecanismos técnicos característicos da fase de dominação real do trabalho ao capital para aprofundar a valorização sob a forma de mais-valia absoluta ou introduzi-la em novos espaços de valorização. Na última década, de maneira mais clara, os salários das economias dominadas passaram a sofrer a concorrência dos salários das economias dominantes…. Isso muda muita coisa

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