quarta-feira, dezembro 12, 2018
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Cúpula do G7: guerra comercial e humilhação às velhas potências europeias

Roma, quer dizer, Washington, urgente! O império humilha as velhas e decadentes potências imperialistas perdedoras da 2ª Guerra Mundial – melancolicamente reunidas nesta sexta e sábado (08) nas proximidades de Quebec, Canadá, para discutir assuntos cruciais e salvar o que ainda resta do Grupo dos 7 maiores países do mundo (G7).

A história é a seguinte. Nesta quarta-feira (06), a França se uniu à Alemanha para uma severa advertência ao presidente Donald Trump de que não assinará uma declaração conjunta do Grupo dos 7 na cúpula de Quebec esta semana se não houver grandes concessões dos EUA.

O presidente francês Emmanuel Macron sinalizou que um entendimento nos conflitos nas tarifas protecionistas de Washington, na suspensão unilateral do acordo nuclear com o Irã e no acordo climático de Paris deve ser feito antes que ele esteja disposto a assinar uma declaração conjunta.

O presidente francês fez essas advertências depois de passar o dia se reunindo com o primeiro-ministro Justin Trudeau e outras autoridades canadenses antes da cúpula deste final de semana em Quebec.

Macron concluiu musculosamente que os outros membros do G7 – o Reino Unido, Alemanha, Japão, França, Itália e Canadá – devem enfrentar os EUA e a decisão de seu governo de impor tarifas sobre aço e alumínio da União Europeia, Canadá e México. bem como outras questões. E Trudeau, o anfitrião da cúpula, também afirmou que as tarifas estavam “insultando” a antiga aliança entre os EUA e o Canadá.

O importante é que essas posições públicas de Macron e Trudeau não foram originadas em Paris e Otawa. Tem gente não muito bem vista por Washington por trás disso tudo. Essa ameaça de confronto surgiu quando líderes mundiais convergiram para o Canadá para a cúpula do Quebec e resolveram apoiar a chanceler alemã Angela Merkel de desafiar Trump sobre comércio e mudanças climáticas na cúpula. Partiu dela também a advertência que a falta de espaço para claros compromissos dos EUA significa que não haverá acordo para a declaração final tradicional.

O que significa isso? A Alemanha de Merkel quer que qualquer declaração conjunta afirme que o comércio deve ser aberto, justo e livre entre os membros do G-7 e o resto do mundo, e que qualquer tentativa de colocar em risco o sistema global de comércio constituiria uma ameaça. Todos os membros também deverão se comprometer a respeitar as regras e buscar uma reforma da Organização Mundial do Comércio.

Finalmente, na declaração conjunta sonhada pelos europeus (a Inglaterra está fora desses conchavos, off course) não se aceitaria nenhuma referência sobre o Irã que não respeite os termos do acordo nuclear ou qualquer condenação do acordo.

Esse foi o primeiro capítulo da história. O segundo, deveria acontecer no próprio desenrolar oficial da cúpula. O centurião Donald Trump, presidente dos EUA, deveria participar da cúpula hoje e amanhã antes de viajar para Cingapura para uma reunião com o líder norte-coreano Kim Jong Um na próxima terça-feira (12).

O segundo capítulo já está acontecendo. Sabem qual foi a resposta do presidente estadunidense às ameaças dos parceiros de Angela Merkel? Em postagem do Twitter, nesta sexta-feira, ele comunica a distinta confraria do G7 que “Estou ansioso para endireitar injustos acordos comerciais com os países do G-7. Se isso não acontecer, vamos ficar muito melhor do que antes”

Nesta sucinta “tuitada”, Washington impõe sua própria minuta da declaração final da mais decisiva cúpula de lideres das potências imperialistas em anos. Nem mais nem menos. Fora de cogitação mexer um milímetro sequer nas condições anteriores de Washington sobre a imposição de tarifas de aço e alumínio por Washington na semana passada, bem como sua decisão de retirar os EUA do acordo nuclear iraniano e do acordo climático de Paris.

Para demonstrar seu total desdém às ameaças desta semana de Frau Merkel e de Messieurs Macron e Trudeau (Inglaterra e Japão parece não meteram a mão nesta cumbuca ) o presidente dos EUA decidiu se retirar da cúpula mais cedo e voar para aquela reunião em Cingapura com o líder norte-coreano Kim Jong Um na próxima terça-feira (12).

Trump deixará a reunião às 10h30 de sábado e colocará Everett Eissenstat, seu vice-assistente de assuntos econômicos internacionais, encarregado das sessões restantes, disse a porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, em um comunicado na data de ontem.

Um funcionário de segundo escalão para acertar com Merkel, Macron, Trudeaus, e outros “grandes líderes” mundiais, para acertar os termos finais da cúpula. É assim que Trump responde às ameaças dos lideres do G7 nesta semana no Canadá. Humilhando, pura e simplesmente todos eles.

Humilhação que os próprios vencedores de guerras evitam aos derrotados. Mais do que um gesto simbólico do presidente dos EUA para dizer a quem interessar o seguinte: neste momento, o assunto que ele tem a discutir com o roliço Kim Jong Un é muito mais importantes que, na sua opinião, as “picuinhas” a serem discutidas e eventualmente aparecerem no comunicado final da cúpula do Quebec.

Nas profundezas da realpolitik estadunidense essa humilhação aos líderes do G7 é mais do que um gesto simbólico. É a emergência de nova política internacional dos EUA. A matéria de capa desta semana da revista The Economist trata dessa incrível mudança de pele da política internacional estadunidense.

A principal revista do establishment imperialista não esclarece nem um milímetro os verdadeiros fundamentos dessa mudança. Apenas se assusta com o fato realpolitik de Washington de não procurar mais esconder sua determinação de abandonar de fato os velhos acordos de manutenção da sua pax armada para as velhas potências europeias e asiáticas perdedoras na 2º Grande Guerra – Alemanha e Japão no centro econômico das duas grandes e tradicionais áreas geopolíticas mundiais.

Nada mais que uma série de considerações morais da vetusta revista sobre as perniciosas e acidentais ações dos grandes na determinação dos rumos da História. Neste caso, evidentemente, um espalhafatoso pequeno homem chamado Donald Trump. Mas jogar a culpa dos infortúnios europeus neste imbecil não resolve nem esclarece nada do problema.

De Quebec para Cingapura. Na próxima semana estaremos fazendo esse trajeto. Motivo da viagem: garimpar na realidade das coisas mais elementos dessa grande virada da política internacional da maior potência econômica e militar do planeta. O destino dos próximos anos do mundo capitalista depende desta irreversível virada.

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