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Desequilíbrios regionais no Brasil: tudo como dantes no bordel de Abrantes

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EDIÇÃO 1322 – Ano 30; 1ª Semana Dezembro 2016.

Breaking Bad(Temp.2 Ep. 2) Desequilíbrios regionais no Brasil: tudo como dantes no bordel de Abrantes

Assombrosa concentração da produção nacional em apenas duas regiões. Mais de 71% do PIB ainda se concentra nas regiões Sudeste (54,9%) e Sul (16,4%). Ou em apenas cinco estados dentre os vinte e sete da federação. Praticamente nos mesmos padrões históricos do século passado. Isso não é normal.   JOSÉ MARTINS

 

Desequilíbrios regionais no interior de um país constituem importante indicador do seu grau de desenvolvimento econômico. Ou de subdesenvolvimento. Uma economia com fortes desequilíbrios regionais será sempre muito pobre. Pode até produzir muito capital, porém o faz com baixa produtividade. Isso é subdesenvolvimento econômico ou pobreza capitalista. Conclusão: nenhuma economia nacional pode tornar-se desenvolvida – alta produtividade relativa às demais economias concorrentes no mercado mundial – sem diminuir radicalmente os desequilíbrios regionais em seu interior.

Vejamos como isso aparece na prática. O Brasil é excelente “estudo de caso” para a teoria ser comprovada. Dados publicados nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentam clara radiografia destes fatais desequilíbrios no Brasil. Vamos ao relatório.

BRASIL: PARTICIPAÇÃO PERCENTUAL DAS GRANDES REGIÕES NO PIB E NA INDÚSTRIA DA TRANSFORMAÇÃO (2014)

REGIÕES

 

PIB

INDÚSTRIA

Norte (Amazonas, Pará, Rondônia, Acre, Roraima, Amapá, Tocantins)

5,3

4,4

Centro-Oeste(Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal)

9,4

5,7

Nordeste (Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia)

13,9

9,1

Sul (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul)

16,4

24,3

Sudeste (Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo)

54,9

56,4

Fonte: Contas regionais do Brasil : 2010-2014 / IBGE, Coordenação de Contas Nacionais. – Rio de Janeiro : IBGE, 2016. 97 p (tabela elaborada pelo autor)

Primeira observação: assombrosa concentração do Produto Interno Bruto (PIB) em apenas duas regiões. Praticamente nos mesmos padrões históricos do século passado. Tudo como dantes no bordel de Abrantes. Mais de 71% do PIB ainda se concentra nas regiões Sudeste (54,9%) e Sul (16,4%). Da totalidade do PIB (US$ 1.774 trilhões de dólares em 2014) a região Sudeste participa com US$ 973 bilhões e a Sul com US$ 300 bilhões, seguidas pela Nordeste (US$ 246 bilhões), Centro Oeste (US$166 bilhões) e Norte (US$86 bilhões).

Cinco dos vinte e sete Estados concentram sozinhos 65% do PIB da União. São Paulo (32,2%); Rio de Janeiro (11,6%); Minas Gerais (8,9%); Rio Grande do Sul (6,2%) e Paraná (6,0%). Para sobressair melhor a foto, listemos também as participações de alguns Estados de outras regiões: Amazonas (1,5%); Pará (2,2%); Tocantins (0,5%); Bahia (2,7%); Pernambuco (2,7%); Maranhão (1,3%); Piauí (0,7%); Goiás (2,9%); Mato Grosso do Sul (1,4%); Mato Grosso (1,8%). Isso não é uma coisa banal! Ou apenas um detalhe sem nenhuma consequência sobre a vida das pessoas, como foi nesta semana apresentado pela cordial mídia nacional. É o retrato em branco e preto de um grande lixão econômico acumulado e ampliado secularmente pela protoburguesia brasileira. Cheio de funestas consequências para o presente e futuro da economia nacional.

Note-se que Estados como os do Centro Oeste e Norte, onde se concentra a grande fronteira do agronegócio, pecuária e das indústrias extrativas de matérias primas – “o Brasil que dá certo”, como se difunde a propaganda dos parasitas – apresentam uma pífia participação na totalidade do PIB nacional. Na verdade, o agronegócio exportador e a exportação de matérias primas são duas atividades econômicas parasitárias estreitamente ligadas à economia do imperialismo e que determinam fortemente os desequilíbrios regionais (e o consequente subdesenvolvimento econômico) que estamos tratando.

O agronegócio e o extrativismo primário-exportador são grandes enclaves econômicos semicoloniais ainda cravados no corpo das economias da periferia do sistema capitalista. Diminuem a produtividade da totalidade da força de trabalho consumida na economia, quer dizer, do exército industrial de reserva espalhado pelo vasto território do país. Travam o desenvolvimento econômico nacional. As regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste apresentam as taxas mais baixas de produto per capita (produto por habitante). Esse dado também pode ser facilmente verificado no relatório do IBGE ao qual nos referimos.

Os desequilíbrios regionais no Brasil são ainda mais assustadores quando se leva em conta a Indústria de Transformação. Neste parâmetro de comparação, como se vê na tabela acima, quase 82% da produção industrial brasileira concentra-se nas regiões Sudeste (56,4%) e Sul (24,3%). Se houve alguma mudança significativa de desconcentração regional no Brasil, nas últimas décadas, foi certo deslocamento relativo da indústria da região Sudeste (de São Paulo, principalmente) para a região Sul, particularmente para os Estados do Paraná e Santa Catarina. Mesmo assim, o estado de São Paulo sozinho, que concentra 32,2% do PIB brasileiro, concentra uma parcela ainda muito maior da produção da Indústria da Transformação – 38,6% da indústria nacional.  

Mas não basta que a produção paulista sozinha (US$ 570 bilhões) seja praticamente a mesma de uma grande economia nacional como a da Argentina (US$ 583 bilhões); ou que seja a soma das produções de Chile (US$240 bi) e Colômbia (US$292 bi); ou, deslocando-se diretamente para a periferia da Europa, a soma das produções de Portugal (US$198 bi), Grécia (US$195 bi) e Irlanda (US$ 238 bi). Isso não faz da economia brasileira uma economia desenvolvida. A boa teoria do desenvolvimento econômico ensina que a eliminação dos desequilíbrios regionais no interior das economias nacionais é uma providência histórica indispensável para decolar do mero crescimento do produto ou da produção, o que não quer dizer muita coisa na hierarquia econômica mundial, para o pleno desenvolvimento econômico.

E a história econômica comprova que essa indispensável providência foi rigorosamente cumprida pelas burguesias das atuais grandes economias dominantes do mercado mundial – como aquelas reunidas no grupo das sete maiores do mundo (G7). E rigorosamente descumprida pelas preguiçosas burguesias e demais parasitas das economias dominadas do mercado mundial – como Brasil, China, Índia e toda a periferia do sistema. As primeiras mandam no mundo. Estas últimas obedecem. É assim que funciona a ordem capitalista internacional.

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