domingo, abril 22, 2018
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Economia brasileira: não sobe nem sai de cima

É impressionante. A economia brasileira não sai do lugar. Mesmo com clima externo favorável. Até a argentina está bombeando. Enquanto o governo e mídia brasileira têm a cara de pau de comemorar um “crescimento” do PIB de 1% em 2017, o neoliberal Maurício Macri, presidente da Argentina, comemorava na quarta-feira (28) um crescimento de quase 3% no ano passado.

É claro que a economia de Macri não é nenhuma beleza. Muito pelo contrário. É uma porcaria tão grande quanto à de Temer. Acontece que os argentinos aproveitaram o fato que a economia mundial fez uma arremetida cíclica, está expandindo há quase dois anos, e eles aproveitaram a oportunidade para pegar uma carona. A situação política ficou menos difícil de administrar que no Brasil.

Todas as grandes economias do mundo – dominantes ou dominadas – aproveitaram essa arremetida cíclica da economia mundial nos últimos trimestres. Todo mundo voltou a crescer. Menos o Brasil. Só ele continua se debatendo no fundo do poço. Só voo de galinha. É isso que mais chama a atenção na atual quadratura do circulo. Parece (só parece) uma coisa inexplicável.

Com o fantasma de uma confortável cela na Papuda na espreita para seus mais ilustres integrantes, o estéril governo Temer tenta de tudo para sair do buraco econômico e respirar politicamente. Mas não consegue. É um ser totalmente refratário à sociedade civil.

Mas tenta. Principalmente do lado da política monetária do Banco Central. No mesmo dia que Macri comemorava suas altas taxas de crescimento, Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central (BC), ligava seus helicópteros e despejava rios de moeda na economia, quer dizer, nos cofres dos bancos, ao decretar uma forte redução dos depósitos compulsórios do sistema.

Depósitos compulsórios são percentuais ou parcelas de todos os depósitos em conta corrente (à vista), em poupança, etc. que os bancos são obrigados a reter esterilizadas no Banco Central.

As medidas, aprovadas dia 28 de Março pelo BC, reduziram a exigência dessas parcelas trancadas no BC de 40% para 25% no caso dos depósitos em conta corrente (à vista). Já os porcentuais para os depósitos da poupança caíram de 24,5% para 20% e, no caso da poupança rural, o mínimo passou de 21% para 20%. As novas regas entram em vigor agora em Abril.

A medida vai liberar R$ 25,7 bilhões no sistema financeiro e, com isso, os bancos passarão a ter em suas mãos mais dinheiro livre para empréstimos. Banana para macaco tomar conta.

É um bocado de dinheiro que se joga nos cofres dos bancos com o intuito de diminuir as taxas correntes de juros no mercado, aumentar a oferta de crédito e, assim, espera-se, reativar o consumo das empresas e famílias.

Vai funcionar? Ninguém sabe. Se valer a experiência recente, não vai funcionar. Tudo que o governo Temer tentou até agora para expandir o crédito e a demanda não funcionou. Só os bancos lucraram. Continuaram a cobrar as maiores taxas de juros do mundo. Só aumentaram o endividamento das famílias e das empresas.

Goldfajn está no Banco Central para fazer o jogo dos banqueiros. Ele mesmo é um banqueiro. Mas ele sabe que não pode deixar que morra a galinha dos ovos de ouro da sua classe. Essa é sua angústia.

Ao contrário do facínora Henrique Meirelles, Goldfajn é um bom economista. Quando, por exemplo, ele fala em preços e câmbio, muitas vezes ele os relaciona à produtividade da economia. É um discípulo de Greenspan e de Bernanke. É por isso que deve estar desesperado. Já está esgotando todas as receitas dos manuais monetaristas e não consegue ampliar o crédito na economia.

No mesmo dia em que aprovou a redução dos depósitos compulsórios, Goldfajn continuou jogando pesado. Surpreendeu o mercado com nova redução da Selic, taxa básica de juros da economia, para 6,5% ao ano. É a menor taxa da série histórica da Selic.

Na última redução, em Fevereiro 2018, afirmava-se taxativamente (sem trocadilho) que “o ciclo de reduções da Selic tinha terminado”. A realidade falou mais alto. Na última semana, além de quebrar a promessa, sem nenhuma desculpa pelo acontecido, o BC sinaliza que haverá mais uma redução na próxima reunião do Conselho Monetário (COPOM). Só uma redução da Selic a mais? Eles garantem que sim.

Assim, o crédito do BC se perde nas águas traiçoeiras da armadilha da liquidez que se forma e afoga o crédito privado e, consequentemente, a recuperação da economia.

O que é mais letal para a economia? Um processo deflacionário – que os economistas confundem ingenuamente com desinflacionário – como o que ocorre atualmente no Brasil, ou um processo hiperinflacionário, como ocorre na Argentina? No mês de fevereiro a inflação argentina cravou 2,4%. Sua inflação mensal quase iguala à inflação anual brasileira.

Os dois processos são letais. Mas, no curto-prazo, o processo deflacionário é muito mais. Vejam o problema do desemprego da força de trabalho. Na Argentina, a taxa de desemprego é de 7,2%. No Brasil, segundo último relatório do IBGE, a taxa de desemprego voltou a subir em Fevereiro 2018, para 12,6% da força de trabalho. São 13,121 milhões de brasileiros desempregados.

Praticamente a mesma massa de desempregados de um ano atrás. Com um agravante. A qualidade do emprego cai absurdamente. A participação do trabalho parcial, informal e “por conta própria”, sem carteira assinada, aumenta exponencialmente sobre o emprego formal, com carteira assinada. A reforma trabalhista está apenas começando a fazer efeito.

“No longo prazo”, já dizia John Maynard Keynes, guru dos burocratas e economistas de Estado, “todos nós estaremos mortos”. Na sua paisagem dos anos 1930, ele via pela janela do seu gabinete milhares de mineiros ingleses desempregados invadindo Londres e exigindo uma solução do governo capitalista para seu problema.

Ilan Goldfajn sabe o que isso representa. Por isso ele bem que gostaria de estar no lugar do seu colega presidente do Banco Central da Argentina, em uma situação bem menos asfixiante que a sua. Pelo menos no curto-prazo, claro.

No final das contas, não é o eterno presente, a grande marca do espírito capitalista, que sempre e necessariamente guiará a administração das empresas privadas e a governabilidade dos mortos?

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