quinta-feira, maio 23, 2019
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EUA: surpreendente queda da produção industrial nos primeiros três meses do ano

por José Martins, da redação.

Aterrissando no núcleo duro da regulação econômica planetária. Primeira e alvissareira observação: até que enfim a poderosa máquina industrial estadunidense deu o primeiro sinal de fraqueza. Com pompa e circunstância.

Ventos muito favoráveis para o desenlace do longevo e resistente ciclo econômico atual. Há mais de três anos, pelo menos, não ocorria uma perda de altitude tão abrupta como a ocorrida na economia reguladora do sistema neste 1º trimestre de 2019.

Não foi pouca coisa. É o que se verifica na leitura atenta do relatório Industrial Production and Capacity Utlization (G17) do Federal Reserve Bank (Fed), banco central dos EUA, publicado nesta terça-feira (16).

Depois de crescer ao ritmo indecente de antigas taxas anuais chinesas nos dois últimos trimestres do ano passado – de 5.8% no 3º trimestre e 5.1% no 4º trimestre/2018 – a maior produção industrial do planeta (quase quatro e meio trilhões de dólares anuais) registrou surpreendente taxa anual negativa de 0.9% no 1º trimestre/2019.

Sobre o mesmo mês de março do ano passado, o crescimento da produção em valor agregado (MVA) recuou para a pequena taxa de expansão 2.4%. Aconteceu pelo súbito desabamento dos principais ramos da produção industrial: automóveis e máquinas.

fonte: Federal Reserve (Fed)

Os melhores indicadores do relógio do ciclo são esses ramos produtores de veículos e autopeças, como ilustrado na curva acima, junto com os ramos produtores de máquinas e equipamentos.

Envolvem, em termos de esferas de circulação do capital, tanto os bens de consumo duráveis individuais (Departamento 2 da economia) quanto os de consumo capitalista e estatal (Departamento 1).

Vejam e reflitam sobre esses incríveis números abaixo. Lembre-se que trata-se aqui de taxas anualizadas, o que torna mais visíveis as perspectivas para os próximos trimestres do ano.

Veículos motores e autopeças: depois de expandir a taxas anuais de 9.2% e 7.9%, respectivamente no 3º e 4º trimestres de 2018, desabou literalmente 12.8% no 1º trimestre de 2019. É muita coisa!

Máquinas e equipamentos: depois de expandir a taxas anuais de 11.1% e 8.7% no 3º e 4º trimestres de 2018, desabou não menos fantásticos 4.3% no 1º trimestre de 2019. Também não é para ser desprezado por quem analisa criteriosamente a evolução da economia real.

Os ramos acima são, repita-se, os “mais cíclicos” da economia real. Tem a ver com a sua composição orgânica do capital superior aos demais. Já estudamos detalhadamente esse assunto em inúmeros boletins nos últimos trinta e dois anos.

Portanto, eles mostram melhor que os demais ramos da esfera industrial a tendência expansiva ou, ao contrário, de maneira incrivelmente rápida, os pontos de reversão e queda (entrada no período de crise) do ciclo de negócios.

Os dados de expansão e queda destes estratégicos ramos de produção de automóveis e máquinas são, portanto, altamente qualitativos para a análise das ondulações do nível de atividade e correspondentes ciclos periódicos de superprodução de capital. Antecipam os movimentos da totalidade da produção.

Na estrita conjuntura atual, entra-se agora efetivamente, com base em dados incontestáveis, na contagem regressiva do ciclo. O cenário mais provável é que este tímido desempenho da produção de valor e de mais-valia pela poderosa máquina capitalista estadunidense perderá ainda mais tração nos próximos trimestres do ano.

O mais importante deste cenário mais provável é que a tendência em direção à crise na maior potência econômica e militar do planeta parece irreversível. E é imensa a massa de capital acumulada que agora fica ameaçada de ser incinerada nos próximos trimestres.

Essa tendência detectada pela Crítica da Economia abalaria irremediavelmente a estrutura produtiva do período de expansão cíclica global que persiste há dez anos. O maior período de expansão cíclica dos últimos 70 anos do pós-guerra.

Essa perda de tração da acumulação do capital nos EUA também impactará imediatamente nos números e taxas de crescimento a serem proximamente registrados pelo seu Produto Interno Bruto (PIB) de mais de 20 trilhões de dólares.

Só então o mercado e seus economistas tomarão consciência da gravidade da nova situação. Tentarão sem sucesso explicar as causas de uma verdadeira crise econômica, que pedirá passagem possivelmente na forma de crise financeira global.

Esse é o roteiro histórico: as modernas crises periódicas de superprodução de capital sempre se anunciam por uma crise de crédito para só em seguida alcançar a produção propriamente dita.

Como sempre acontece, também, os economistas tomarão mais uma vez essa antiga forma de crise do capital produtor de juros como o próprio conteúdo da moderna crise de abrupta desvalorização do capital produtor de lucro que eles desconhecem em seus cálculos burocráticos da chamada Macro Economia.

A sua ignorância teórica resulta necessariamente em altíssima cobrança prática: não serem capazes de agir com qualquer modalidade de política econômica para frear ou pelo menos desviar o curso da economia global rumo ao desabamento.

Ora, se tudo isso é verdade, pode-se concluir que as perspectivas desta produção industrial reguladora da economia mundial são altamente favoráveis ao ponto de vista da crise catastrófica do capital e das revoluções sociais. Tanto no centro quanto na periferia do sistema global.

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