segunda-feira, outubro 23, 2017
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Fantasmas do passado (e do presente) assombram a visita do primeiro ministro japonês aos EUA.

Washington estende um tapete vermelho para receber a visita do premier japonês Shinzo Abe aos EUA, nesta terça-feira, 28. Por detrás da visita existem coisas muito mais importantes do que os entediantes discursos diplomáticos, as negociações de novo tratado comercial, etc.. A expectativa mais importante que paira sobre esta viagem de um primeiro-ministro japonês aos EUA depois de quase dez anos, é qual será sua disposição de expressar tristeza ou arrependimento das ações militares do Japão na Segunda Guerra sobre seus vizinhos – quase setenta anos depois da sua rendição, em 1945.

Abe San não tem nenhuma disposição de atender essa exigência. Não se trata de considerações morais ou de orgulho samurai, mas porque essa pendenga aparentemente ingênua esconde duas preocupações muito sérias. Do lado dos EUA, que faz de conta que está preocupado com os “excessos” causados pelo militarismo japonês no passado, mas na verdade está mais do que preocupado com os planos do presente de nova militarização da maior potência econômica da Ásia. Do lado japonês, que não se rebaixa por nada do que fizeram no passado, do mesmo modo que os EUA, que nunca se desculparam por coisas muito piores do que usar mulheres chinesas e coreanas para servir aos seus soldados de frente de batalha. A recusa japonesa a discutir moralismo com os vencedores da guerra e seus aliados na Ásia (China e Coréia do Sul) é a clara disposição de sair da sua atual tutela militar direta e voltar a ser uma nação integral, em que sua potência econômica não seja destruída pela ausência de uma correspondente potência militar.

Todo mundo sabe desta disposição (e necessidade) dos japoneses de voltar a serem os novos xerifes da Ásia. Eles nem se preocupam muito mais de esconder publicamente suas ambições. Por enquanto, prometendo apenas certa virtude humanitária de defender seus vizinhos das ameaças chinesas. Como um ano atrás, por exemplo, em discurso em Singapura, o premier japonês prometeu abandonar a passividade diplomática característica do Japão desde a Segunda Guerra para defender países vizinhos em disputas territoriais com a China.

Segundo o discurso do premier, o Japão vai cooperar mais com os EUA, Austrália, Índia e outras nações que defendem o direito internacional e a liberdade de navegação, bem como desencorajar esforços cada vez mais fortes da China para assumir o controle de ilhas e extensões de oceanos que são reivindicados por outros países asiáticos. “O Japão tem a intenção de desempenhar um papel ainda maior e mais proativo do que tem exercido até agora para tornar a paz na Ásia e no mundo algo mais certo”, concluiu o premier japonês. (The New York Times, “Japan Offers Support to Nations in Disputes With China”– 30/Maio/2014) http://www.nytimes.com/2014/05/31/world/asia/japan-china-abe.html

Resta saber amanhã, quarta-feira, 29, qual será a reação diplomática da China às intenções de acordos econômicos bilaterais e de “segurança regional”, que Abe e Barack Obama, presidente dos EUA, estarão assinando nesta terça-feira em Washington. Uma coisa parece cada vez mais clara: os destinos da civilização serão resolvidos em grande medida no imenso espaço que liga os dois lados do Pacífico.

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