sábado, abril 20, 2019
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France: hommes et femmes incontrolables

por José Martins, da redação.

Nas ruas de Paris o inverno é rigoroso. Neste início de janeiro a temperatura atinge seus pontos mais gelados. Por isso muita gente (principalmente o governo e as forças da ordem) imaginavam que haveria um arrefecimento do ímpeto das rebeliões dos “coletes amarelos” que ocuparam as ruas em todo o país a partir de novembro passado.

Mas as estações da rebelião social não seguem calendários naturais.  As duas primeiras semanas do ano mostraram que a determinação dos coletes amarelos continua crescendo e ameaçando mais do que antes o cargo de Macron e seu governo do capital, grandes proprietários e grandes fortunas.

Em Paris, neste último sábado (12), pela segunda vez no ano, cerca de 84.000 coletes amarelos participaram de protestos em todo o país, contra os 50.000 da primeira semana do ano.

Os confrontos eclodiram no meio da tarde entre os manifestantes e forças de repressão em Paris e no interior da França, depois de manifestações com menos confrontos na parte da manhã, confirmando os temores do Ministério do Interior de uma combatividade renovada da população rebelde.

A repressão da ordem aumentou virulenta: 224 pessoas foram colocadas em prisão preventiva pela polícia em todo o território francês, e outras 102 foram detidas no local dos protestos, segundo informações oficiais (manipuladas, bien sur) do Ministério do Interior da França.

A polícia usou todo seu aparato de repressão armada, além dos mais conhecidos de gás lacrimogêneo, balas de borracha e caminhões-tanque com jatos de água para conter o ódio da multidão enfurecida contra a ordem dos proprietários e capitalistas.

As forças da ordem começaram a dispersar a partir de 17h30, na Place de l’Étoile, palco principal de violências governamentais contra a população nas últimas semanas, no centro de Paris.

A rebelião dos coletes amarelos revela uma crise de confiança inédita dos franceses em suas instituições políticas, econômicas e em seus dirigentes. Uma pesquisa anual do Centro de Estudos da Vida Política Francesa (Cevipof), cujos resultados foram publicados na sexta-feira (11) pelo jornal Le Figaro, mostra que a população já não tem a menor confiança nos três poderes da República.

Do presidente ao primeiro-ministro, senadores e deputados, juízes, políticos de todos os partidos são atingidos por esse fenômeno.  Segundo o levantamento, 85% dos entrevistados estimam que os dirigentes do país não estão nem um pouco preocupados com eles. Que nunca estiveram.

Na avaliação do Le Figaro, “o quadro é preocupante”. Segundo o mais tradicional jornal da França o movimento social dos coletes amarelos mostrou que os franceses perderam a confiança não só nos políticos, mas também nos jornalistas, grandes empresários, banqueiros e sindicatos. “Todas as categorias que se organizam em torno do poder são rejeitadas, acusadas de cinismo, ganância e incompetência”.

O jornal adverte, finalmente, que o grande erro seria ficar apontando a extrema direita como única responsável pela onda de protestos, apenas pelo fato de que um dos principais porta-vozes do movimento, Maxime Nicolle, é um simpatizante de longa data do partido de Marine Le Pen. “É hora de reagir”, diz Le Figaro, “porque a desconfiança é compartilhada por toda a população”.

Duas notáveis revelações destas primeiras grandes manifestações dos coletes amarelos nas duas primeiras semanas geladas de 2019. A primeira, que a França está a mergulhar em uma saudável crise de ingovernabilidade. É cada vez mais real a possibilidade de Macron não ser capaz de se manter no cargo de Presidente da República. E a possibilidade mais importante ainda de a população não aceitar ninguém no seu lugar! A porta da guerra civil e da revolução se entreabriria.

A segunda grande e brilhante lição da luta revolucionária da população francesa neste início de ano: os homens e as mulheres dos coletes amarelos são incontroláveis. É isso que está afirmando com todas as letras os mais importantes movimentos proletários revolucionários em França.

Como o coletivo Guerre de Classe que acaba de divulgar um ilustrativo texto sobre a atual situação da luta de classes em França. Os coletes amarelos apontam para as tarefas imediatas da rebelião em curso. No ponto de vista pratico dos exclusivos interesses da classe proletária, a única produtiva. Só a classe historicamente produtiva é revolucionária (Marx)

No caminho da revolução, o texto destaca uma boa lição de crítica da economia política. Não se esquece em nenhuma linha da base material, a determinante do processo – seja na crítica das superestruturas capitalistas, seja das representações democráticas de lideranças sindicais, partidárias, etc.

Crítica radical da lei do valor e da democracia. Comme il faut [como se deve] a todos os movimentos revolucionários que se prezam. Só assim podem declarar com propriedade o princípio básico do comunismo: homens e mulheres mais do que livres, incontroláveis!

Copiamos abaixo o texto original em francês, depois apresentamos a tradução para o português. Para aqueles dispostos a pensar por conta própria.

 

NEM MACRON NEM NINGUÉM. PARALISEMOS A ECONOMIA EM TODO O PAÍS!

OCUPAÇÃO DAS FÁBRICAS, PARALISAÇÃO DOS BANCOS, BLOQUEIO DAS REFINARIAS… VAMOS ENTRAR EM CONTATO COM OS CAMPONESES QUE POSSUEM OS MEIOS PARA BLOQUEAR PONTOS ESTRATÉGICOS COM EFICIÊNCIA!

DEVEMOS DORAVANTE PASSAR A UM PATAMAR SUPERIOR.

PORQUÊ?

PORQUE O MOVIMENTO SOCIAL DOS COLETES AMARELOS TRAÇOU O CAMINHO RADICAL DA AUTO EMANCIPAÇÃO HUMANA.
ESSE MOVIMENTO É APENAS O SIMPLES REFLEXO DE UMA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL, QUE PROXIMAMENTE TRAGARÁ O CAPITALISMO EM SUAS CONTRADIÇÕES.

A ECONOMIA POLÍTICA PROGRAMA A NOSSA MORTE, EMPURREMO-LA DEFINITIVAMENTE AO ABISMO!

PARA QUE SERVE O TRABALHO VIVO DOS PROLETÁRIOS A PARTIR DE AGORA? PARA PAGAR A DÍVIDA MUNDIAL QUE NÃO SÓ ACABARÁ POR DESABAR, MAS TORNA IMPOSSÍVEL NOSSA EXISTÊNCIA!

A NOSSA VIDA NÃO É UMA MERCADORIA! TEMOS QUE NOS AUTO-ORGANIZAR PARA UMA REAPROPRIAÇÃO DOS MEIOS DE PRODUÇÃO PARA UMA VIDA HUMANA LIVRE DA BUROCRACIA, DO DINHEIRO E DO ESTADO!

A HUMANIDADE PODE PERFEITAMENTE ORGANIZAR A SUA PRODUÇÃO DE MANEIRA COERENTE SEM INTERMEDIÁRIOS. PRODUZAMOS PARA NOSSAS PRÓPRIAS NECESSIDADES. NÃO SOMOS CARNE PARA A MAIS-VALIA!

NÓS COLETES AMARELOS TEMOS MOSTRADO COM A ESPONTANEIDADE DO MOVIMENTO E SEM ESPERAR NADA DE NINGUÉM QUE NOSSA VIDA HUMANA DEVE ESTAR FORA DA ECONOMIA POLÍTICA OU NÃO SERÁ NADA… A VIDA, A NATUREZA, OS RECURSOS, A HUMANIDADE NÃO SÃO APROPRIÁVEIS! A NOSSA EMANCIPAÇÃO NÃO TEM PREÇO! ELA É UM SOPRO QUE DEVE PERDURAR NA ALEGRIA E NO ARDOR COLETIVO ATÉ OBTER A PLENA SATISFAÇÃO DOS NOSSOS DESEJOS!

NÃO TEMOS NADA MAIS A PERDER SENÃO NOSSAS CORRENTES!

PROLETÁRIOS UNÍ- VOS!

 

HOMENS E MULHERES INCONTROLÁVEIS

 

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