terça-feira, março 26, 2019
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Boletim da Crítica

A urbanização do campo dos países dominados do sistema imperialista torna-os imediatamente grandes importadores de insumos agrícolas para a reprodução das pessoas e a criação de animais. Mesmo os grandes exportadores da periferia – como Brasil e outros orgulhosos paraísos do agro tech e do agro pop – são incapazes de produzir produtos agrícolas suficientes par alimentar sua população cada vez mais miserável e sua indústria de terceira categoria.

Grandes mudanças no funcionamento do comércio internacional de produtos agrícolas. Na superfície do processo se enxerga logo de cara uma rápida mudança na classificação dos maiores produtores e exportadores. Quem é quem na nova ordem agrícola mundial? Sem criar expectativas agro-nacionalistas infundadas, a melhor pergunta é: o que mudou realmente na ordem agrícola mundial?

Tradicionalmente, os Estados Unidos sempre foram disparadamente os líderes das exportações agrícolas mundiais. Principalmente de dois cereais básicos – trigo e milho. O outro alimento de base mundial, o arroz, é monopolizado pela área asiática. Smith já tinha feito essa distinção: trigo na Europa, arroz na Ásia.

Nos últimos quinze anos as exportações estadunidenses das chamadas commodities agrícolas continuaram aumentando. E muito. Permitiram que suas empresas ficassem mais lucrativas. E seus fazendeiros muito mais ricos. Mas, no mesmo período, a sua dominância como o maior exportador agrícola internacional foi rapidamente corroída.

O fenômeno vai além da esfera comercial. Acontece que no regime capitalista não existe monopólio permanente, como em regimes mais antigos. Na gênese desse corrosivo processo de quebra da antiga estrutura de concorrência do mercado internacional de commodities agrícolas encontram-se a globalização do exército industrial de reserva e a quebra do monopólio da produção agrícola norte-americana.

A globalização da produção agrícola (antes que a variação da demanda internacional pelas suas commodities) está na base desta corrosão do monopólio norte-americano. Globalização financeira e generalização da técnica superior. Esses dois fatores básicos permitiram a outros países com extensos territórios de terras agriculturáveis a possibilidade de importar e absorver com muita rapidez aquela técnica superior da produção agrícola dos EUA.

Abriu-se a caixa de Pandora. Os antigos enclaves agroexportadores permanecem, mas agora adaptados às novas necessidades das empresas e rentistas internacionais. Capitalistas de todas as partes, principalmente do próprio EUA, puderam se instalar nesses países de grandes territórios agriculturáveis no leste da Europa, Ásia e América do Sul.

As facilidades políticas e jurídicas altamente liberalizantes e desregulamentadas pela imposição do poder imperialista dessas empresas globais abrem as portas destes Estados mequetrefes da periferia facilitando deslocamento de massas de investimento externo direto (IED) para a expansão da agroindústria em novos, enormes e baratos enclaves agroexportadores. São empresas multinacionais, investidores externos e grandes fundos de investimentos globais que adquirem livremente grandes propriedades fundiárias.

Mas esses capitalistas estrangeiros estão menos interessados na terra natural e muito mais na terra-capital. Controlam rigidamente o comércio e o escoamento do produto: financiam os estoques, controlam os preços, comercializam a safra e comandam as burguesias nativas dos enclaves do agronegócio na exploração de áreas intermináveis de terras.

Eles ficam com a maior parte do lucro do negócio e as burguesias nativas com alguns trocados e parte da renda fundiária. O capital imperialista eleva assim a produção mundial de commodities agrícolas e amplia as perspectivas de comércio externo. O Brasil e a Índia são os países receptadores deste capital global que ilustram melhor esse processo. Vejam os números abaixo.

Dez Maiores Exportadores Mundiais de Commodities Agrícolas – 2000/2015
(Valor Exportações Agrícolas em US$ bilhões)

Pais (A) 2000 (B) 2015 A/B Variação %
EUA  18,9 44,4 134%
Brasil 4,6 35,9 677%
 Canadá  4,8 17,0 253%
 Índia  1,3 11,7 769%
 Argentina  3,6 10,0 172%
 Austrália  4,4 9,7 119%
 França  4,7 9,0 90%
Ucrânia 0,287 7,6 2550%
Vietnam 1,4 6,4 359%
Rússia 0,288 6,3 2113%

Fonte: FAOSTAT – Food and Agriculture Organization of the United Nations (dados elaborados pelo autor)

A oferta de commodities agrícolas exportadas do Brasil, Índia, Ucrânia, Rússia (e Canadá correndo por fora) aparecem ostensivamente na concorrência internacional nos últimos quinze anos. Taxas de crescimento das exportações cinco vezes maior (caso do Brasil) ou até vinte vezes (Ucrânia e Rússia) que a taxa de crescimento (134%) das exportações dos EUA no período.

Além do grande peso da concorrência de produtos industrializados, essa nova realidade do comércio agrícola internacional também pesa bastante nas posições agressivas e crescentemente protecionistas do governo norte-americano.

Os analistas da inócua mídia nacional e internacional tratam as mudanças recentes de uma clara política de Estado dos capitalistas norte-americanos frente ao resto do mundo como mera fanfarronice passageira de Donald Trump. Essa confusão de apressados analistas entre política de Estado e gestos atrapalhados de “grandes homens” sempre acaba diluindo-se no calor de novos conflitos entre nações e blocos econômicos.

Na realidade fria dos fatos a “America First” não é uma criação arbitrária do fanfarrão Donald Trump, mas da própria classe capitalista daquele país. O efeito imediato aparece naturalmente no ânimo de reação dos demais Estados e competidores internacionais.

Com Trump ou sem Trump essa nova palavra de ordem dos capitalistas norte-americanos agrava ainda mais o declínio relativo de suas exportações agrícolas. Força a abertura de outros mercados de produtos agrícolas.

Já existem, por exemplo, propostas de mudanças na legislação no parlamento do México sobre mercado exterior de produtos agrícolas que poderiam bloquear o milho dos EUA em favor de produtos argentinos, brasileiros e de outros países sul-americanos. Estes últimos teriam a possibilidade real de ampliar sua participação no mercado da Nafta em vias de extinção. Já existem movimentos concretos neste sentido.

Para a sorte dos capitalistas, essas medidas não dependem da política externa desses países dominados. Se dependessem apenas da destrambelhada política externa dos governos brasileiro e argentino, por exemplo, não ocorreriam essas mudanças do mercado real que se contrapõem ao “America First”.

O problema é que a desqualificada política exterior dos novos governos Temer e Macri nunca foi tão submissa como atualmente ao porrete de Washington. Veja, recentemente, a triste e covarde virada dessa política brasileira e argentina frente aos demais países da América Latina, particularmente à Venezuela e Cuba, com governos ainda relativamente insubmissos às ordens de Washington.

Para a sorte e para as necessidades privadas do capital multinacional, os governos e as inúteis protoburguesias agrárias de Brasil e Argentina influenciam quase nada nas estratégias e decisões reais desses novos negócios do comércio internacional. Como vimos acima, o comércio exterior de commodities agrícolas no Brasil – do mesmo modo na Argentina de Macri – é comandado pelas corporações multinacionais, começando pelas norte-americanas. As contradições são as mesmas, os tempos é que são outros quinhentos.

É por isso que as grandes empresas globais ficam com maior fatia dos lucros do agronegócio nestes países. A bancada ruralista nativa fica feliz em obedecer, não trabalhar, receber tudo de mão beijada, incluindo os novos métodos de exploração do solo. Tudo para receber no final do agreement de servos e patrões uns trocados de renda que, relativamente, as faz muito ricas e poderosas frente à imensa pobreza histórica de seus respectivos países.

Por outro lado, nem o México nem os demais países da América Latina existem para consumir alimentos, mas para exportar mesmo a sua limitada produção. O grande fator de demanda que melhor se adapta à nova estrutura do comércio internacional de commodities é a populosa China, o “chão de fábrica” do mundo.

China, no topo da tabela, reformulou a cadeia de fornecimento das commodities agrícola global no século XXI. A combinação de urbanização sideral e mais bocas para alimentar fora do campo na nação mais populosa do mundo tornou a China um ímã para exportações agrícolas de várias partes do mundo. Especialmente dos EUA, que agora vende para a China mais da sua colheita do que qualquer outro país.

A parte que a China importou das commodities agrícolas embarcadas no mercado mundial — variando de milho, soja e trigo, algodão, café e de borracha — subiu de 5,4 em 2000 para 21 por cento em 2015. O valor dos produtos agrícolas a granel que a China importou em 2015 foram superiores ao dos outros quatro maiores compradores mundiais importaram em conjunto — Alemanha, EUA, Japão e Países Baixos.

O apetite aparentemente interminável da China e novas regiões industrializadas da periferia realizou a nova paisagem agrícola global. Com a efetiva globalização do exército industrial de reserva, velhos paradigmas são quebrados em várias partes do globo. O interesse do pais mais populoso do mundo pelo milho não geneticamente modificado da Ucrânia, por exemplo, tem empurrado a nação do mar Negro, uma potência tradicional de trigo, a plantar mais do grão demandado pela China.

Outro efeito alucinante. Neste ano, pela primeira vez, a soja pode tornar-se a colheita mais plantada nos Estados Unidos. A área plantada da leguminosa no maior produtor agrícola do globo superará a do milho, tradicional alimento de base dos norte-americanos. É um fenômeno que vira de ponta cabeça toda a matriz agrícola mundial. É um dos fatos mais importantes da recente reviravolta do comércio internacional de commodities agrícolas. Deve ser analisado separadamente.

Essas reformulações globais ocorrem não só por causa da crescente demanda chinesa, mas também de inúmeros outros países da periferia recentemente integrados às cadeias produtivas globais de capital (modelo montagem asiático). Deslocamentos monumentais de centenas de milhões de pessoas diretamente do campo para serem consumidas nas linhas de produção industriais e amontoadas nas favelas das novas megacidades.

A urbanização do campo destes países dominados do sistema imperialista torna-os imediatamente grandes importadores de insumos agrícolas para a reprodução das pessoas e a criação de animais.

Essa globalização realizada do exército industrial de reserva está na base mais profunda do processo comercial que analisamos. Altera profundamente a formação dos preços internacionais e desestabiliza aquela tradicional estrutura de concorrência dos últimos setenta anos entre os maiores produtores agrícolas mundiais.

Voltaremos oportunamente a esse assunto, analisando exatamente esse efeito desestabilizador dos preços agrícolas internacionais e de descontrole da superprodução no decorrer do ciclo periódico e aproximação da crise.

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