segunda-feira, agosto 20, 2018
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O pibinho é nosso

Os capitalistas e seus ideólogos se exprimem sempre da maneira mais cínica e direta possível. Sem rodeios. Principalmente quando se trata das suas relações imperialistas com vassalos emergentes, como Brasil e outras casas-da-mãe-Joana do sistema.

Nesta semana, mais uma vez, essa moderna forma de expressão dos nossos queridos investidores internacionais foi cruamente impressa na última edição da maior revista de economia do mundo, a The Economist.

Comentando o anúncio da baixa taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no terceiro trimestre de 2012, de apenas 0.6%, a revista dá um seco ultimato ao governo brasileiro – “Se Dilma Rousseff deseja um segundo mandato, ela deve formar nova equipe econômica”. São mais diretos ainda no meio da matéria – “Ela deve demitir o Sr. Mantega, cujas previsões super-otimistas levaram à perda de confiança dos investidores, e indicar uma nova equipe capaz de reconquistar a confiança do mercado”.

A presidenta resolveu responder ao ultimato da revista, que ela chamou de “sugestão”. E sabe o que ela respondeu? “Eu nunca vi nenhum jornal propor a queda de um ministro. Nós estamos crescendo a 0,6% nesse trimestre. Iremos crescer mais no próximo trimestre. Então a resposta é: de maneira alguma eu levarei em consideração esta, digamos, sugestão. Não vou levar”.

Será? A relação de poder do sistema imperialista de dominação internacional e seus vassalos da quinta maior economia do mundo é de uma indiscutível clareza.

“MORIBUNDA CRIATURA” – O mais importante das duas matérias da revista sobre o Brasil, na mesma edição desta semana,3 é o extremo pessimismo sobre a atual situação da economia brasileira, que ela caracteriza como “moribunda criatura”.

Diz a categorizada porta-voz imperialista: “Os motores do crescimento que alimentaram o Brasil na última década estão pifando. Os preços das exportações de commodities, embora ainda elevados, não estão mais crescendo. Os consumidores estão usando mais de sua renda para pagar os empréstimos com os quais haviam comprado carros e televisões. Baixo desemprego significa que existem menos mãos disponíveis para serem postas a trabalhar. Em vez do consumo, o crescimento agora tem de vir de uma maior produtividade e investimento. Isso significa mexer com o “Custo Brasil”: a combinação de burocracia, impostos pesados, crédito caro, infraestrutura precária e uma moeda sobrevalorizada, que tornam o país um lugar extremamente caro para fazer negócios”.

Esse pessimismo com a “quinta economia do mundo” é generalizado. Os maiores jornais e revistas mundiais de negócios vão todos na mesma linha de catástrofe à vista.

Recentemente, relata a rede BBC, na publicação de entrevista da presidenta brasileira ao jornal Financial Times, este último diz que o Brasil teve “progresso notável” nos últimos anos, mas alerta que a economia está “lentamente desacelerando ao ponto de rastejar”.

Vale a pena colocar os pontos nos is e verificar mais de perto essa orquestração da parasitalha imperialista sobre a economia nacional e a guilhotina para o ministro da Fazenda. Suas decisões de política econômica são realmente tão erradas a ponto de levar a economia à beira do abismo? Vejamos os fatos.

ENQUANTO ISSO… – Os dados disponíveis não corroboram aquele catastrofismo dos órgãos imperialistas sobre o estado atual da produção brasileira. Pelo menos para os próximos trimestres, enquanto o capital global não encerrar o atual período de expansão, pois, no longo prazo…

De acordo com dados do IBGE sobre a produção industrial, que deve determinar a evolução do PIB nos próximos trimestres, observa-se tendência de recuperação das perdas acumuladas até o primeiro semestre deste ano – em síntese, de acordo com os números, a atividade industrial mostrou aumento no ritmo produtivo nos últimos meses, já que o setor acumulou expansão de 2,3% entre maio e outubro, eliminando, assim, as perdas observadas nos cinco primeiros meses do ano (-2,2%).

Entre os diferentes ramos industriais, nesse mesmo período (maio-outubro), o maior crescimento ficou com bens de consumo duráveis (9,2%), impulsionado em grande parte pela maior fabricação de automóveis e de eletrodomésticos da chamada “linha branca”.

Os resultados positivos também se espalham pelos bens de consumo semi duráveis e não duráveis (2,6%), bens intermediários (1,5%) e bens de capital (0,1%).

Metodologicamente, é interessante notar que, ainda na série com ajuste sazonal, a evolução do índice de média móvel trimestral reforça essa tendência de recuperação de ritmo da produção, já que manteve a trajetória ascendente iniciada em julho último.

A tendência à retomada de maior dinamismo industrial também foi verificado na comparação com igual mês do ano anterior: o setor industrial apontou expansão na produção em outubro, revertendo treze meses de resultados negativos nesse tipo de comparação. Nos indicadores do acumulado no ano e nos últimos doze meses observam-se ainda índices negativos, mas com redução na intensidade de queda frente às marcas registradas nos meses anteriores.

Essa reversão de tendência na economia brasileira mostrada pelo IBGE também foi captada pelos radares da Organização para o Comércio e Desenvolvimento Econômico (OCDE), e seu relatório dos Indicadores Antecedentes.

RUGIDOS IMPERIAIS – Não há nenhum indício de que a política econômica de Mantega tenha sido prejudicial à retomada da produção nacional. Os números mais fundamentais da tendência cíclica da economia indicam o contrário.

No entanto, a parasitalha imperialista, ao contrario de alguns ingênuos economistas cucarachas, não confunde os interesses da economia nacional com os interesses privados dos investidores internacionais.

Para entender melhor esse imbróglio entre economia e política, voltemos ao diagnostico da revista The Economist sobre as fraquezas da política econômica de Mantega (os negritos são nossos):

“Nos últimos 15 meses, o Banco Central reduziu os juros em 5,25 pontos percentuais, para 7,25%, apenas dois pontos acima da inflação. Isso ajudou a enfraquecer a moeda e estimular o setor manufatureiro. O governo cortou contribuições sobre os salários para empresas indústrias (mas não para o setor de serviços). Também está cortando tarifas de energia elétrica e convidando empresas privadas para melhorar a qualidade de aeroportos, estradas e ferrovias… Empresas estão agindo com cautela porque o governo se mete demais em seus negócios. Um bom exemplo é o aparente desejo do governo de reduzir o retorno sobre investimentos por imposição, não só para bancos, mas também para as empresas de energia elétrica e outros provedores de infraestrutura… O Banco Central pode ser tentado a reagir aos últimos números da economia com outro corte da taxa de juros. Isso seria um erro. Em vez disso, o governo deveria redobrar os esforços para reduzir o Custo Brasil, revendo leis trabalhistas e, assim, permitindo que o setor privado solte seu rugido selvagem.”

Resumo das “medidas erradas” tomadas por Mantega que, segundo a revista, levaram a economia à beira do abismo – reduziu drasticamente a taxa de juros da economia; desvalorizou o câmbio; isentou as contribuições patronais sobre a folha salarial; cortou tarifas de energia elétrica; entregou aeroportos, estradas e ferrovias para os capitalistas ganharem mais dinheiro, etc.

Mas essas medidas não são todas altamente favoráveis aos capitalistas, e, principalmente de caráter anticíclico, tomadas para evitar o desabamento imediato da economia e dos lucros dos capitalistas? Não são exatamente essas medidas que estão sendo tomadas nas economias dominantes do sistema (EUA, Alemanha, Japão, Inglaterra, França…)? Não é bem assim, diz a The Economist.

UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA COISA – Para os capitalistas e seus porta-vozes na mídia global o que é bom para proteger os EUA pode ser também para a periferia, mas com certeza não é para seus lucros imperiais. Quer um exemplo?

– “O Banco Central pode ser tentado a reagir aos últimos números da economia com outro corte da taxa de juros. Isso seria um erro”, diz a revista.
– Mas por que isso é um erro, se nos EUA, na Europa e no Japão, a taxa de juros já está próxima de zero e querem que reduzam ainda mais?
– Porque, respondem eles, isso deprime demais o nosso espírito animal de depredadores imperialistas na periferia estropiada pela miséria e pelo genocídio em massa.
– Que medida vocês sugerem, então para voltar às maiores taxas de juros do mundo e seus gordos lucros com a dívida pública brasileira?
– É simples, respondem, faça apenas o elementar: “o governo deveria redobrar os esforços para reduzir o Custo Brasil, revendo leis trabalhistas e, assim, permitindo que o setor privado solte seu rugido selvagem”.

Marx dizia que a crise cíclica explode antes nas economias da periferia para só depois atingir as economias do coração do sistema, porque os mecanismos para enfrentar a queda da produção disponíveis no centro não existem na periferia.

O atual ministro da Fazenda brasileiro acreditou ingenuamente que não existe mais essa realidade fundamental de desenvolvimento desigual e combinado no sistema imperialista de dominação. Nem mesmo em imperialismo ele nunca acreditou. Por isso procurou fazer política anticíclica da mesma forma que o Bernanke, etc. Acreditou que o Brasil é a quinta economia do mundo.

Foi preciso que os próprios imperialistas mostrassem a ele que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Como? Da forma mais cínica e direta possível: com sua cabeça servida em uma reluzente bandeja de prata para mostrar a todos os demais economistas cucarachas que, de tempos em tempos, se esquecem das regras fundamentais de funcionamento do moderníssimo sistema capitalista de produção.

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