segunda-feira, outubro 23, 2017
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Projeções da conjuntura mundial: o “fim da recessão” do Brasil no meio do redemoinho

Analisar a atual situação e a perspectiva da economia mundial não é tarefa para amadores. Por isso deve ser saudado o fato quando alguém mais categorizado se arrisca a dizer alguma coisa a respeito. É o caso do respeitado relatório mensal Economic Outlook da OECD, publicado nesta quarta-feira (20).
O mais interessante deste relatório é a revisão e as novas projeções do crescimento anual (PIB) da maiores economias do mundo. Vamos aos números.

Projeções da OECD do crescimento real do PIB (% anual)

Antes de analisar mais de perto esses números, saliente-se um fato interessante: o Brasil acaba de ser aceito como membro titular da OECD. Do mesmo modo que o México, aceito há mais tempo. Isso é bom para o Brasil? É péssimo. Mais uma instituição burocrática imperialista estará monitorando o país e metendo o bedelho nos assuntos econômicos internos brasileiros.
Mais um bando de burocratas imperialistas dando ordens expressas para a protoburguesia nativa quanto à política econômica, reformas liberais, desregulamentações, arrocho salarial, abertura de mercados, etc..
Aliás, como já é feito há muito tempo por outras instituições similares: FMI, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio, etc.. O que é bom para os “investidores externos” é bom para o Brasil. Esse é o mantra. O pior é que essas ordens são disciplinadamente obedecidas pela protoburguesia nativa da Avenida Paulista e do Agro Pop.
O lado bom deste fato do Brasil ser um novo convidado da OCDE é que os dados da sua economia estarão sempre presentes nos relatórios da instituição. Lado a lado com os dados das economias que realmente contam na ordem econômica mundial. Facilita a análise do paciente. Como no quadro acima.
A economia brasileira faz sua rentrée (ingresso) no seleto clube da OCDE e mostra suas credenciais perante o mundo. Porcas credenciais. Compare com os números das demais economias. É a única grande economia no mundo que continua patinando no pântano da estagnação. Queda de 3.6% em 2016 e caminhando de lado (0.6%) em 2017. Importante observação: a OCDE revisou o crescimento brasileiro deste ano para baixo (-0.1 ponto percentual frente à previsão de Junho). Viés de baixa. Tendência de baixa.
Até a Rússia, que até o ano passado fazia companhia ao Brasil na triste situação de “recessão”, a previsão para este ano é de crescimento de 2.0%, com tendência de alta (0.6%).
Os números da tabela acima indicam um suspiro de expansão global. Um quadro de crescimento geral do produto e do comércio mundial no final de um ciclo econômico. Depois de crescer 3.1% no ano passado, a economia mundial deve crescer 3.5% neste ano e, sempre segundo a OECD, off course, mais 3.7% no ano que vem. As ideias de “estagnação secular” passam longe desta realidade.
Mas, nesta altura do campeonato, é uma previsão altamente otimista. É para nenhum analista que leva em conta a periodicidade do ciclo econômico não ficar preocupado com suas próprias avaliações.
Acontece que para os economistas da OCDE, como de resto para todos os economistas vulgares (dos liberais em geral aos keynesiano-marxistas) a periodicidade dos ciclos econômicos não passa de incerta e instáveis emanações da política econômica dos governos e dos bancos centrais.
O que será que estarão pensando Donald Trump e Janet Yellen? Para a economia política dos capitalistas é a demanda agregada e os juros que determinam a dinâmica e as flutuações econômicas. E as crises periódicas não passam de indesejáveis bolhas da circulação simples das mercadorias. Fundamentalmente crises monetárias.
Como ocorria nas formas pré-capitalistas do velho regime. Assim, o que acontece ou deixa de acontecer com o capital nestes momentos de crises periódicas de superprodução não passa de meros resíduos de aleatórias crises financeiras.
De todo modo, o otimismo dos números estampados na tabela acima é acompanhado por preocupantes tendências de crescimento mais realistas das maiores economias em 2018. Tirando a economia dos EUA – para a qual é projetado um crescimento de 2.4%, maior que os 2.1% deste ano – a OECD projeta uma redução do crescimento em 2018 para todas as demais economias dominantes – Euro área, Japão, Canadá e Inglaterra.
Os técnicos da OCDE não oferecem nenhuma explicação para essas evidências de queda nas maiores economias dominantes, fora os EUA. Passam batido. Nem mesmo uma pequena nota para as únicas projeções do relatório que apresentam certo grau de racionalidade.
Uma nota final sobre o Brasil no meio de todos esses números. Projeta-se para essa claudicante economia um crescimento de 1.6% para 2018. É o bastante para a protoburguesia e seus economistas comemorarem o “fim da recessão”. Mas essa festa perde todo seu glamour quando se compara com a projeções da demais economias.
O problema é que com esse pífio crescimento projetado para o próximo ano o desempenho econômico brasileiro continuará sendo, de longe, o menor de todos os seus novos colegas de clube. Principalmente da China (6.6%), Índia (7.2%) e Rússia (2.1%), economias dominadas com as quais o Brasil deve ser comparado.
Como se verifica na tabela, o crescimento projetado para 2018 do Grupo das Vinte Maiores Economias (G20) é de 3.8%. Essa elevadíssima projeção da OECD deriva do suspiro de crescimento que se verifica na totalidade da economia mundial.
É exatamente esse movimento temporão de crescimento que explica em grande parte o “fim da recessão” no Brasil. Mas é por isso mesmo que sua desfalecida economia continuará girando alucinadamente no meio do redemoinho de um quadro mundial cujo desenlace depende em grande parte das decisões de Donald Trump e dos vacilantes dirigentes do banco central do planeta (Federal Reserve, banco central dos EUA).
Incertezas e instabilidades povoam a cabeça dos capitalistas. Todos os donos do mundo reféns do estrondoso final de mais um longo período de expansão global. Apenas prorrogando ao máximo o inevitável estrondo. Nenhuma política econômica pode evitar. Além do otimismo verbal da OCDE, esse final de festa já pode ser visto até mesmo pelas frestas do seu alentado relatório desta semana.
E o “fim da recessão” no Brasil se desenrolará convulsivamente no espasmo deste insustentável e último suspiro de um desenganado ciclo econômico global.

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