segunda-feira, outubro 23, 2017
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Realpolitik: o eixo Moscou-Beijing anuncia as primeiras escaramuças da nova guerra mundial.

A guarda de honra do exército chinês marcha pelas ruas de Moscou, cantando a “Katyusha”, balada patriótica russa [ veja no vídeo https://www.youtube.com/watch?v=JjS7Cvf_lLU#t=18  ]. Este realismo fantástico ocorreu no último fim de semana, na parada militar comemorativa do 70º aniversário da vitória do “exército vermelho” sobre as potencias fascistas na 2º Grande Guerra Mundial. O presidente da China, Xi Jinping, acompanhado de sua simpática esposa, assistia as comemorações ao lado do todo poderoso Vladimir Putin, presidente da Rússia. O importante é que essas presenças da guarda de honra e de Jinping marcam coisas muito mais importantes do que o simbólico reconhecimento chinês ao papel decisivo da Rússia para a vitória dos aliados estalinistas e liberais sobre os fascistas e nazistas em 1945.

A participação da China nas festividades em Moscou reflete o forte estreitamento de seus laços militares com a Rússia, incluindo exercícios navais conjuntos, e uma retomada de compras de armamentos russos de alta tecnologia. São coisas que já preocupam bastante Washington e que podem complicar seu expansionismo e dominação imperialista tanto na Ásia quanto no Oriente Médio.

Não foi só a guarda de honra de Beijing que deu as caras na Rússia, semana passada. No sábado, três navios chineses também fizeram uma inédita incursão no Mar Negro, em seu caminho para se juntar às comemorações no porto de Novorossiysk, ao sul da Rússia. Os navios chineses – dois destroier lançadores de mísseis e um barco de abastecimento – vão também fazer parte em exercícios conjuntos com a marinha russa no Mar Mediterrâneo. É a primeira vez que isso acontece, de acordo com autoridades russas e chinesas.

Os dois lados dizem que os exercícios não são direcionados para nenhum país. Entretanto, para analistas internacionais, o momento – logo depois da reintegração da Crimeia pela Rússia, em 2014 – e a localização – no flanco sul da Organização do Atlântico Norte (NATO), órgão de intervenção imperialista dos EUA na Europa e varias partes da Ásia – estão aumentando as preocupações de Washington e seus fantoches japoneses com a emergência do eixo Moscou-Beijing. 

Para Vasily Kashin, do Centro de Análises de Estratégias e Tecnologias de Moscou, especialista em exército chinês, “O mais significativo é que as marinhas dos dois países estão aprendendo a projetar o poder nas outras regiões do mundo”. Em outras palavras, o eixo Moscou-Beijing se projeta em termos reais, por enquanto, como a única potência militar em todo o mundo que se antepõe efetivamente ao poder da NATO (leia-se EUA). E esse projeto só pode se concretizar nos mares, que representam as veias e artérias da geografia da guerra. Para Vasily, a visita de navios chineses a Novorossiysk pode ser vista como uma resposta aos navios da NATO que fizeram exercícios no Mar Negro em Março/2015. A mensagem é: “A Rússia também tem aliados”.

Essa estratégia sino-russa de amplo poder marítimo não está começando neste ano. No ano passado, Moscou e Beijing encenaram manobras navais conjuntas pela primeira vez no Mar da China Oriental, onde a China está envolvida em disputa territorial com o Japão. Em setembro deste ano, Putin e algumas de suas tropas participarão de uma parada militar na China para marcar o aniversário da derrota do Japão em 1945. Será uma grande festa.

Enquanto isso, as vendas de armamentos russos para a China estão pegando tração depois de uma calmaria de vários anos devido a clonagens chinesas de armamentos russos e da relutância de Moscou em fornecer armamentos com tecnologia de última geração. Mas essas preocupações estão bastante minimizadas ultimamente, segundo autoridades russas. Os tempos são outros.

A China tornou-se recentemente o primeiro país a adquirir da Rússia o sistema de misseis terra-ar S-400. A China há muito desejava esse armamento, cuja gama de 200 milhas lhe permitiria atingir, pela primeira vez, alvos em qualquer ponto ao longo de Taiwan, sua “província rebelada”, e ajudar a estabelecer superioridade aérea sobre ilhas em disputa no Mar da China Oriental.

Dmitry Rogozin, vice-primeiro-ministro da Rússia, disse no mês passado que Moscou e Pequim finalizarão neste mês de Maio/2015 planos para construir em conjunto uma versão atualizada da geração soviética do helicóptero Mi-26. Isso resolveria outro ponto fraco do exército da China. E novas negociações estão em curso sobre a venda de 24 aviões de combate russo Su-35, de acordo com a agência de notícias russa RIA Novosti. O Su-35 – que segundo especialistas em aviação, seria o único comparável com o projetado F-35 dos EUA – tem maior resistência, velocidade e capacidade de manobra do que qualquer dos atuais caças de combate da China, capacitando-a a operar mais no Mar do Sul da China,

Segundo o Pentágono, a China também está perseguindo agora um novo programa de design e produção conjunta com a Rússia para submarinos diesel-elétricos, que poderiam ser usados para barrar navios dos EUA que procurariam intervir em um conflito na Ásia.

A geopolítica mundial se acelera para grandes rupturas da ordem imperialista que, do mesmo modo que a vitória dos aliados, também perdura há setenta anos.  Se se confirmar e se aprofundar o eixo Moscou-Beijing, as primeiras peças do tabuleiro a se locomover e se rearmar serão Japão e Alemanha. Neste caso, não se pode dizer que a história se repetirá, nem mesmo como farsa. Mas, certamente, a reemergência  das primeira escaramuças de uma nova guerra mundial começa a sepultar a paz dos cemitérios que também se celebrou em 1945 com a santa aliança entre estalinistas e liberais para trancafiar o proletariado nas grades do maior período de contrarrevolução mundial da era capitalista.

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