domingo, novembro 19, 2017
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REALPOLITIK: O futuro da Europa passa por Kaliningrado.

O leste europeu é peça importantíssima para os desdobramentos da realpolitik dos EUA e Rússia na Europa, nos próximos dez anos. Qualquer notícia de movimentação naquele tabuleiro deve ser observada com atenção. O jornal The New York Times, porta-voz na mídia da política imperialista oficial dos EUA, destaca neste domingo, 14, que o Pentágono continua considerando a possibilidade de colocar armas pesadas em países do Leste europeu e três deles se mostram ansiosos em instalá-las em seu território – Polônia, Lituânia e Estônia. Mas nada é muito simples neste complexo jogo estratégico das duas maiores potências militares mundiais, EUA e Rússia, que vai além das informações, contrainformações e discursos oficiais.

O ministro da Defesa da Polônia, Tomasz Siemoniak, por exemplo, declara que as negociações sobre o armazenamento de armamentos pesados norte-americanos estão aceleradas: “Estão sendo realizadas negociações sobre a implantação na Polônia de armazéns de equipamento militar do exército dos EUA. Este é mais um passo para aumentar a presença dos Estados Unidos na Polônia e na região”.  Siemoniak é um fantoche de Washington e faz o discurso que lhe é passado. Assim, ele também lembrou que Varsóvia “há muito que procura aumentar a presença militar norte-americana na Polônia e em todo o flanco oriental da Otan. É relativamente fácil deslocar soldados, mas seria muito bom, entretanto, que o equipamento esteja próximo da área de potencial ameaça”. Disse que o tema foi discutido em Washington durante a reunião com o secretário da Defesa dos EUA, Ashton Carter.

A Lituânia é outra que repercute a política do Pentágono.  Segundo o ministro da Defesa do país, Juozas Olekas, a Lituânia também apoia a ideia de aumentar a presença norte-americana na região. Ele gostaria de receber tanques M1A2 Abrams e veículos blindados M2A3 Bradley:

“Somos de opinião de que pelo menos uma parte de tanques e veículos blindados será colocada na Lituânia. Nós estamos preparando a infraestrutura para a recepção dos armamentos, está quase pronta”. A Estônia também declara, pelo seu ministro da Defesa, Sven Mikser, de maneira rigorosamente concertada com seus vizinhos, que também gostaria de receber armas pesadas norte-americanas. E conclui, de maneira bastante eloquente, que só vê benefícios no fato de o “Estado mais poderoso no plano militar dos países da OTAN pensar seriamente na segurança na Europa de Leste”.

O jornal The New York Times reforça os discursos dos fantoches de Washington, escrevendo que os Estados Unidos podem colocar nas bases de seus aliados europeus da Otan tanques, veículos de combate de infantaria e outras armas pesadas, bem como enviar três ou cinco mil soldados. Também é considerada a possibilidade de colocar equipamento militar norte-americano na Letônia, Romênia, Bulgária e Hungria.

Enquanto isso, a proposta ainda deve ser aprovada pelo secretário da Defesa dos EUA, Ashton Carter, e pela Casa Branca. O porta-voz oficial do Pentágono, Col. Steve Warren, disse que os EUA ainda não tomaram a decisão sobre a localização dos seus armamentos na região.

Tais movimentações de armas pesadas e tropas no leste europeu são justificadas por uma campanha mais ampla de conter uma possível agressão russa à região do leste europeu. O fato é que Moscou não concorda com nenhuma presença permanente de tropas da Nato em seu bloco de novos membros, afirmando que isso viola acordos tacitamente estabelecidos nos anos 1990. E que a Rússia está pronta a elevar seus equipamentos militares – leia-se misseis Iskander com ogivas nucleares, com um alcance de centenas de quilômetros – em seu enclave europeu de Kaliningrado (a antiga Prússia Oriental alemã), que margeia o território da Polônia e Lituânia.

Dirigentes das antigas potências europeias (em hibernação desde o final da 2ª Guerra) questionam se a Nato iria em socorro à Europa do leste no caso de ataque da Rússia e à ameaça real de utilizar armas nucleares. A Alemanha, em particular, tem se oposto ao deslocamento de armamentos pesados aos blocos do flanco oriental europeu por medo de provocar esse tipo de respostas da Rússia.

Mas Vladimir Putin, presidente da Rússia, alegou em entrevista na semana passada na Itália que “só uma pessoa insana e delirante poderia imaginar que a Rússia de repente ataque a Otan”.  Disse também que a Rússia não busca conflitos, somente responde às ameaças. Declarou, como em inúmeras outras vezes, que os gastos militares dos EUA superam os gastos militares somados de todos os países no mundo. Já os gastos somados dos países integrantes da Otan superam em 10 vezes os gastos militares da Rússia. Além disso, completa, ao contrário dos Estados Unidos, a Rússia praticamente não possui bases militares no exterior.

Pelo menos os dados empíricos levantados pelo dirigente russo estão corretos, retratram fatos reais. Quanto às possibilidades dele atacar ou não os novos aliados da Otan, entretanto, é uma história bem diferente destas que ele andou contando em Roma na última semana, ao lado do seu amigo de longa data, Signori Silvio Berlusconi.

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