quinta-feira, novembro 15, 2018
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Surpreendentes mudanças na paisagem dos investimentos globais de capital

Quais são, neste momento, os principais destinos, caminhos e descaminhos dos investimentos externos diretos (IED) globais? Dessas massas de capital-dinheiro internacional circulando pelo mundo para funcionarem na produção industrial interna e no comércio dos países. Para serem aplicados em máquinas, matérias primas, insumos e força de trabalho.

Já estudamos anteriormente que as exportações desses chamados greenfield capital na literatura econômica de movimento de capitais internacionais são diferentes de exportações de dinheiro-capital produtor de juros e rendas – investimentos de curto-prazo na esfera financeira, bancos e outras inutilidades improdutivas. Duas formas modernas de funcionamento do sistema imperialista. A forma de exportação de capital-dinheiro, para ser reproduzido na produção industrial é a mais importante. É a forma imperialista especificamente capitalista.

Vejamos o que a United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) está dizendo a respeito deste movimento internacional de capitais em seu mais recente relatório World Investment Report 2017, divulgado em 07/Junho/2017.

Na soma total, os fluxos de IED diminuíram 13% em 2016, para U$1,670 trilhões. A Europa registrou o declínio mais nítido (26%), seguido pelos países dominados da periferia (20%). Dentro desta soma , entretanto, os investimentos diretos na produção e novos projetos (greenfield capital) registraram 6% de crescimento em 2016, alcançando a soma US$776,2 bilhões. Isto sugere que o declínio global dos fluxos de IED em 2016 é devido principalmente a um declínio da parte relativa aos fluxos transnacionais de fusões e aquisições (M&A).

Como já também estudamos anteriormente em outros boletins da Crítica, dentro do IED total esses fluxos de M&A são qualitativamente diferentes dos fluxos de greenfield capital. O primeiro diz respeito a mudanças de controle ou de proprietários capitalistas das empresas, à centralização do capital. O greenfield capital diz respeito a investimentos em novos projetos ou ampliação da capacidade instalada das empresas capitalistas, quer dizer, à concentração do capital. Neste texto estamos tratando apenas desta última modalidade de IED ou de investimentos.

A paisagem dos investimentos globais mudou consideravelmente em 2016. Os capitais caçando novos espaços de valorização direcionam-se naturalmente para países e regiões que apresentam elevadas taxas de lucro e correspondente crescimento econômico, enquanto regiões e países em contração ou enfrentando altos níveis de incertezas quanto ao futuro dessas variáveis registraram os maiores declínios.

Alguns números chave: a Índia conseguiu manter a coroa de local mais procurado do mundo para investimento de capital pelo segundo ano consecutivo – à frente de China e Estados Unidos. A nova estrela da economia do imperialismo foi a primeira colocada no ranking por país (US$ 62 bilhões).

E a China, concorrente a ser batida pela Índia, ultrapassou novamente os EUA, em 2016, para se tornar o segundo maior país importador de IED. Mas, note-se uma coisa muito importante. Enquanto o número de projetos de novos investimentos subiu 16% na Índia e 4% nos EUA, na China ocorreu uma queda de 10%. A China perde altitude com muita rapidez.

Mesmo com suas purulentas contradições, a região Ásia-Pacífico manteve-se a principal região de destino para IED em 2016, com 3921 novos projetos anunciados, recebendo um investimento de capital estimado de US $348 bilhões. Isso representa 45% de todo o investimento capital global em 2016.

O problema asiático, particularmente da China, é que seus capitalistas devem aumentar ainda mais e mais a miséria da população – tão ou mais exitosamente do que na Índia – para que a região continue ganhando todos os troféus deste sinistro campeonato imperialista.

Os países da Europa Ocidental foram a fonte principal de IED em 2016, mesmo com uma queda de 3%, com 5553 projetos de IED registrados em suas exportações de capitais. Isto representou 44% de todos os projetos de IED globalmente. As empresas baseadas na Europa Ocidental foram responsáveis por US$219 bilhões de investimentos diretos no exterior.

Do mesmo modo que na Ásia e nas demais áreas dominadas do sistema as importações de investimentos imperialistas exigem aumento exponencial da miséria da população, o deslocamento recorde de capitais da Europa para a Ásia e outras áreas do mundo é a base do seu elevado desemprego, miséria social e instabilidades políticas.

Essas consequências da globalização na Europa tornaram-se mais visíveis depois do último choque global de 2008/2009, mas se tornarão mais evidentes (e explosivas) com a eclosão do próximo choque. Nos EUA de Trump e no Japão de Abe San esse problema europeu também se apresenta.

Na América Latina também houve grandes modificações de fluxos de investimentos globais. Principalmente na maior economia da região, no país de grandes filósofos como Michel Temer e Gilmar Mendes, que assistiu a um incrível colapso dos projetos e investimentos imperialistas em 2016.

Para a região como um todo, os investimentos na América Latina cresceram 2% em 2016, para um total de US$ 71,2 bilhões. O número de projetos cresceu 5%, enquanto o número de emprego de trabalhadores decorrentes destes projetos também cresceu 4%.

Os três principais destinos do capital na região foram México (US$ 26.2 bilhões), Brasil (US$ 12,1 bilhões) e Argentina (US$ 12 bilhões). Combinados, esses três países contabilizam 70% dos investimentos internacionais na região.

Mas o Brasil experimentou um declínio histórico em todos os itens relacionados à entrada de greenfield capital: queda de 33% no número de projetos, de 28% em investimentos de capital e de 15% no emprego. No mesmo ano a Argentina subiu 279% nos investimentos e 123% nos novos projetos.

Neste momento, Brasil e Argentina estão empatados em 2º lugar na participação nos fluxos de IED na América Latina, com 17% cada um. O México é o 1º, com 36% do total. Em 2014, a participação era México (24,3%), Brasil (17,3%) e Argentina (2,9%).

O Brasil perde espaço na economia do imperialismo. Velozmente. Mais que a China. Essa é mais uma consequência da sua verdadeira crise econômica, quer dizer, da perda relativa de rentabilidade frente aos seus demais concorrentes, incluindo seus vizinhos da América Latina.

Como pode ser revertida essa derrocada capitalista brasileira? Como o investimento imperialista produtor de lucro poderá retornar no Brasil, nos mesmos elevados níveis que existiam até 2013, aproximadamente?

A resposta é tão simples quanto o enunciado: quando a exploração da classe operária no Brasil for aumentada para níveis absurdamente elevados, quer dizer, perfeitamente adequados às necessidades de valorização dos projetos do capital imperialista (e também o nacional da protoburguesia, off course), aqui instalado.

O investimento imperialista produtor de lucro retornará ao Brasil como sempre fez no passado se e quando as classes dominantes nacionais e seus patrões imperialistas conseguirem impor à classe operária uma taxa de mais-valia suficientemente elevada para que o greenfield capital para cá direcionado seja remunerado pelo menos com a taxa de lucro normal em países dominados de dimensão parecida com o Brasil.

Como é o caso da Índia. Ou da China, esta com a mesma dificuldade brasileira para continuar atendendo o patrão nessas exigências. Como é o caso também da Rússia e da África do Sul, estas também com as mesmas dificuldades da China e do Brasil.

A parte mais antiga dos Brics está em apuros. Todos terão que emparelhar a exploração da classe operária e a miséria da sua população em geral para os patamares normais e atuais da Índia, México, Indonésia, Vietnã, Filipinas, Haiti, Laos, Camboja, Cazaquistão, Myanmar e outras estrelas da civilização plenamente realizada.

Só a luta de classes poderá responder se eles terão sucesso nesta empreitada.

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