segunda-feira, outubro 15, 2018
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Temperatura máxima em Wall Street

por Fernando Grossman, da redação.

Depois de bater todos os recordes históricos, nos últimos nove anos, e não haver nenhum sinal evidente que esses recordes possam parar, ainda tem gente mais inteligente que os chamados homens do mercado e que aparece, de repente, para alertar a esses indivíduos práticos que as coisas da vida econômica não são tão simples quanto eles imaginam.

É o caso, por exemplo, de Robert Shiller – professor na Yale University e que, apesar de ser um ganhador do prêmio Nobel de Economia, é um economista inteligente. Em palestra nesta sexta-feira (14) em Nova York, disse para uma plateia de acelerados especuladores que vê “tempos ruins no mercado de ações” à frente. Uma sensação de que alguma coisa muito ruim está para acontecer brevemente.

Em entrevista à CNBC TV, em 22 de Agosto, ele já tinha afirmado que o nível exagerado da recente disparada touro do mercado indica que é hora de vender. O “mercado touro” pode reverter para o “mercado urso”. Uma nova correção no mercado de ações.

Na palestra de sexta-feira reforçou essa recomendação, explicando que os capitalistas (“investidores”) devem ignorar a recente explosão nos lucros das empresas estadunidenses e focar na valorização de longo-prazo, a qual, segundo ele, “carrega notícias muito ruins (foreboding news, no original) para o mercado de ações”.

Shiller é muito conhecido por uma série de formulações e teorias a respeito do mercado de ações. Mas seu grande prestígio se deve a um interessante indicador que ele formulou e utiliza para medir a valorização no mercado de ações.

Trata-se da Cyclically Adjusted Price to Earnings ratio [relação Preço/Lucro Ciclicamente Ajustada], um indicador correntemente conhecido como “Shiller CAPE” or “Shiller PE”.

Permite analisar a valorização das ações ao longo de um período de dez anos para suavizar as flutuações no ciclo econômico (business cycle). Atualmente, o “Shiller CAPE” está em 33,3, seu nível mais elevado desde junho de 2001.

É claro que é difícil detalhar o roteiro completo do próximo choque global. Mas, indo além das corretas intuições de Shiller, pelo menos algumas coisas a respeito já podem ser antecipadas com segurança. Uma delas é que essa planetária queima de capitais será inaugurada com uma monumental desvalorização das ações da bolsa de valores de Nova York, em Wall Street.

Outra coisa, mais segura ainda, é que a explosão será a maior de todas ocorridas nos últimos setenta anos. A evolução do índice S&P 500 que mede a da valorização das 500 maiores empresas dos EUA, mostra com clareza a cena em que essas coisas ocorrerão. Veja a curva de longo prazo atualizada dessa odisseia capitalista.

Algumas observações. No presente ciclo econômico, o mais longo rali da história fez com que o índice S&P 500 subisse mais de 335% desde a ressaca encerrada em Março de 2009. Essa desvairada trajetória de valorização mostra, ao mesmo tempo, o potencial de destruição de capital que certamente ocorrerá na nova correção que pode explodir nos próximos trimestres.

Compare-se o que está ocorrendo neste ciclo econômico com os dois anteriores. Em Maio de 2000, como destacado no gráfico, o S&P 500 já havia alcançado um fantástico pico recorde de valorização de 1420,60 pontos. Foi aquela coisa inaudita no pós-guerra que Alan Greenspan, presidente do Fed, na época, chamou de “exuberância irracional”.

Aquele índice de 2000 foi novamente igualado pelo pico do ciclo posterior, em Dezembro /2007, às vésperas da explosão da nova crise 2008/2009. É notável, portanto, que os dois picos daqueles dois ciclos econômicos correspondem (em 2000 e 2007) ao mesmo nível de valorização.

Em outras palavras: apesar da persistência da “exuberância irracional”, a massa de capital a ser queimada no último período de crise (2008/2009) continuava em condições politicamente administráveis. De um lado, pela política fiscal e monetária do Fed e do governo estadunidense; de outro, pelas ações geopolíticas e militaristas da máquina imperialista comandada pelos EUA (OTAN, União Europeia, Israel, etc.).

Mas agora, nesta segunda-feira (17 Setembro 2018) o índice S&P 500 alcançava 2888,80 pontos! Exatamente o dobro daqueles picos recordes dos dois ciclos anteriores. Mais do que irracional, uma exuberância altamente criativa de destruição de capital.

Primeira comprovação: existe agora uma nova e fantástica massa de capital acumulada nos últimos nove anos significativamente maior do que nos dois últimos ciclos periódicos anteriores. Pronta para ser incinerada.

É isso que permite afirmar que esse incêndio no coração do sistema – e a consequente falência de um número incalculável de bancos e empresas – será o maior de todos ocorridos nos últimos setenta anos do pós-guerra.

Importante observação: esse incêndio será de difícil contenção através dos mecanismos imperialistas de regulação e de governabilidade (ultra-imperialismo) conhecidos e aplicados nos últimos setenta anos. Trata-se de um processo incontornável de corrosão e enfraquecimento das condições internas fundamentais da pax-imperialista do pós-guerra.

A atual reestruturação da ordem geopolítica mundial e os conflitos comerciais de Washington com as principais áreas e economias do resto do mundo são claras manifestações antecipatórias deste processo de apodrecimento da civilização.

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